GUIN√Č-BISSAUūüá¨ūüáľ: Cidadania Ativa

Não se pode pensar que sairemos do caos organizadamente desorganizado se continuarmos a agir como cidadãos sem vínculos com os nossos compromissos pessoais intercalados com os compromissos coletivos.

Como cidad√£os, para fazermos existir uma cidadania ativa, digna desse nome, devemos, primeiramente, abdicar de fazer coisas s√≥ por fazer, criar associa√ß√Ķes s√≥ porque sim, criar grupos de formadores e forma√ß√Ķes s√≥ porque os vizinhos do lado tamb√©m o fizeram, organizar campos de f√©rias s√≥ porque se quer marcar a diferen√ßa…

Neste caos que estamos ‚Äúconfortavelmente‚ÄĚ instalados, se quisermos mudan√ßas efetivas e estruturais, devemos parar, parar de verdade e ver sobretudo como est√° a evoluir a nossa sociedade no que toca √†s organiza√ß√Ķes juvenis. O que se fez? O que se deixou de fazer? Como foi feito? Como fazer perante as mudan√ßas que estamos a constatar? (as perguntas s√£o tantas…). Mas, acima de tudo, antes de partir para poss√≠veis respostas a estas perguntas, ser√° fundamental perguntarmos, individualmente, qual √© a nossa causa m√°xima? Que compromissos vamos assumir e fazer acontecer com essa causa e as causas com as quais simpatizamos? E como transferir esse compromisso da causa individual para uma organiza√ß√£o, grupo de bairro, associa√ß√Ķes, ONGs etc‚Ķ?

Creio que, a falta de consist√™ncia das organiza√ß√Ķes juvenis guineenses deve-se, sobretudo √† falta de reflex√Ķes profundas em termos individuais (de cada membro pertencente √† alguma organiza√ß√£o) e tamb√©m a mesma falta de reflex√£o em termos coletivo, tanto em cada organiza√ß√£o como no conjunto de todas essas organiza√ß√Ķes.

Enquanto continuarmos com falta de v√≠nculos fortes entre o ‚Äúeu‚ÄĚ e o ‚Äúoutro‚ÄĚ, ou entre ‚Äún√≥s‚ÄĚ e os ‚Äúoutros‚ÄĚou at√© entre “n√≥s todos”, continuaremos neste exagero de organiza√ß√Ķes sem impactos significativos que possam, de alguma forma, fazer a diferen√ßa e colmatar a aus√™ncia dos pol√≠ticos junto da comunidade.

Pode-se considerar e levar muito a s√©rio os nossos ativismos e/ou as nossas cidadanias ativas criando v√≠nculos com o Estado. Caso o Estado n√£o quiser colaborar, n√≥s pessoas coletivas, podemos com pouco ou nenhum recurso, criar as nossas agendas nacionais que v√£o ao encontro da cobertura das necessidades de todas as gera√ß√Ķes e todos os grupos sociais constantemente marginalizados.

No que toca √† auto-produ√ß√£o de riqueza, como organiza√ß√Ķes de jovens, n√£o temos de nos queixar, pois temos recursos naturais imensamente ricos que, ao explorarmos conscientemente poderemos estar a aprender sobre v√°rias t√©cnicas que nos ser√£o √ļteis e ao mesmo tempo ganhar alguma autonomia financeira com isso. Tamb√©m temos as nossas bolanhas a precisar de m√£o de obra juvenil constante a cada per√≠odo da chuva, mas n√£o olhamos por a√≠, partimos para campos de f√©rias com diferentes denomina√ß√Ķes em vez de criar Escolas de Campo e/ou Escolas do Mato, de forma a impulsionar a produ√ß√£o de riqueza no pa√≠s com os recursos que temos e ao mesmo tempo autonomia financeira das organiza√ß√Ķes juvenis e dos pr√≥prios membros.

Portanto, sem tirar m√©rito a campos de f√©rias que as organiza√ß√Ķes juvenis guineenses realizam a cada m√™s de agosto de cada ano, em que se preocupam fazer aprender em ensinar a v√°rios jovens em variad√≠ssimas oficinas de aprendizagem em diferentes tem√°ticas, usufruindo da metodologia da educa√ß√£o n√£o-formal. Tamb√©m se pode, de alguma forma, modernizar esses campos de f√©rias trazendo para os jovens metedologias de educa√ß√£o n√£o-formai voltadas para a pr√°tica e obten√ß√£o de recursos financeiros que possam ajudar a pagar as suas propinas nas universidades, escolas ou pagar as inscri√ß√Ķes para ingressar em alguma escola de forma√ß√£o que lhes valha.

Na aus√™ncia disso, continuaremos a ver jovens a pedir dinheiro para a inscri√ß√£o nos campos de f√©rias, dinheiro de bolso para ter durante esse per√≠odo e tamb√©m pedir dinheiro para pagar as inscri√ß√Ķes nas universidades e afins…

Contudo, o caminho para se afirmar nesse tipo de cidadania ativa está aos nossos pés, basta pararmos e parar de verdade de modo a (des)construir esse modelo hegemónico e dominante que vigora nestes campos de férias.

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU РContrariar o Machismo. Vencedor do Prémio Literário José Carlos Schwarz na Guiné-Bissau Р2022.

GUIN√Č-BISSAUūüá¨ūüáľ: C√©u di Tchon

O céu do Marte, não conhecemos. Dos outros planetas, idem. Mas o de cá, da terra, é tudo igual. Repito, os céus são todos iguais. Os do Planeta Terra.

Faz um ano desde que passei pela Turquia, um país que encanta os seus visitantes a vários níveis. A mim, me encantou também pelo maravilhar do seu céu. Pois, já vinha com um hábito de ver sempre como está o céu, e consoante a comunicação que absorvo desse olhar, visto-me à maneira.

Criei de alguma forma uma conexão muito forte com o céu da Covilhã. Em cada rua íngreme via-se o céu de uma maneira diferente, e quase sempre próximo à cabeça. Diz-se que é um das cidades com maior aproximação ao céu, e não duvidei quando lá estive. Pois, criei uma cumplicidade com o céu que sou incapaz de explicar. E este texto é só uma tentativa de justificar essa cumplicidade.

Antes da Covilh√£, tinha em mim o h√°bito de acompanhar o p√īr do sol. Algarve, oferecia essa beleza incrivelmente sentida e estimada, n√£o s√≥ pelos algarvios, como tamb√©m por quem passa pelo Sul de Portugal.

J√° na Mealhada, estava eu a aprender a olhar para o c√©u, de j√° que n√£o tinha a minha fam√≠lia por perto, e uma das formas de sentir essa proximidade era abstrair-me com um olhar muito focado no c√©u em v√°rios √Ęngulos, tentando perceber a posi√ß√£o das nuvens e que tipos de animais conseguiam formar sem nos darmos conta.

Antes de tudo o que anteriormente expliquei, n√£o tinha estabelecido nenhuma rela√ß√£o afetiva com o c√©u da minha terra. Guin√©-Bissau. Pensava eu que tinha tudo aos meus p√©s. Mas n√£o tinha. Ser√° que n√£o? Tinha sempre terra a cada vez que levantava um p√©. Mas n√£o sabia que era assim e nem agradecia. E o c√©u da minha terra quase nem o via, com exce√ß√£o quando passava um avi√£o, e o del√≠rio infantil nos subia √† cabe√ßa e olh√°vamos entusiasmados para o c√©u com acompanhar de um c√Ęntico de uma palavra repetidas vezes “Avion, Avion, Avion…” n√£o mais que isso at√© deixarmos de o ver.

Acontecia também olharmos para o céu quando buscavamos a lua nova, como ato de confirmação do início do mês de Ramadão, do seu fim ou da festa de Tabaski. Fora esses momentos, era só confirmar se caía a chuva ou não, pois, o céu fica nublado e duvidoso.

Agora, a forma de ver o céu da minha terra tornou-se outra. Procuro, acima de tudo abstrair-me a cada instante quando levanto a cabeça. Além disso, ao levantar a cabeça para ver o céu pode-se procurar, de certa forma, uma imaginação poética ou filosófica, e/ou uma imaginação carregada de vazio. Um vazio que pode preencher a nossa alma sem termos sentido.

Aqui na Guin√©-Bissau, o c√©u d√°-nos a possibilidade de sair, ainda que seja de forma imagin√°ria, da terra para uma busca de conforto longe de atingir. Pois, c√° na terra, da Guin√©-Bissau, que n√£o √© de todo lindo ou pelo menos confort√°vel de se sentir agrad√°vel perante as in√ļmeras anomalias que encontramos, o c√©u servir√° sempre como um ref√ļgio para amansar a alma perturbada, seja para ver o nascer-do-sol, o p√īr-do-sol ou simplesmente ver o c√©u durante o dia.

Que o c√©u sirva n√£o s√≥ para contemplar a beleza das nuvens como tamb√©m de retirar alguma reflex√£o que possa servir no nosso dia a dia, que √© complexo e dif√≠cil de compreender, quer em termos de comportamentos individuais como coletivos. Pois, o pa√≠s precisa de abstra√ß√Ķes que tragam frutos e n√£o de meras abstra√ß√Ķes s√≥ porque o nosso corpo pede.

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU РCONTRARIAR O MACHISMO

GUIN√Č-BISSAUūüá¨ūüáľ: Bissau, Cidade Apertada

√Č calorosa e sempre em movimentos pr√≥prios. Com as pessoas a andarem de um lado para o outro, feitas bolas de t√©nis, em cima umas das outras e tamb√©m correndo para resolu√ß√£o das suas mistidas (afazeres, compromissos…). Carros praticamente empilhados uns nos outros, engarrafamentos constantes na avenida principal do pa√≠s e da cidade, o som das buzinas frequentemente nos ouvidos de quem anda pela Avenida dos Combatentes da Liberdade da P√°tria e por outras estradas que interligam os bairros.

Estas constituem as primeiras caracter√≠sticas da cidade de Bissau, cujo nome √© origin√°rio de Intchassu, N’nssassu e B√īssassum, que significa “bravo como a on√ßa” (in: Wikipedia) na l√≠ngua pepel. √Č o maior centro urbano do pa√≠s e da√≠ se tornar definitivamente como capital da Guin√©-Bissau desde princ√≠pios do s√©culo XX, depois de Cach√©u e Bolama, antigas capitais da Guin√©( portuguesa.

Atualmente, e aos meus olhos, com uma vis√£o mais cr√≠tica, ponderada e com certa maturidade a comparar com o per√≠odo da minha adolesc√™ncia, considero a cidade de Bissau n√£o s√≥ apertada por imensas raz√Ķes, algumas supracitadas, como a falta de infra-estruturas dignas que possam permitir uma boa conviv√™ncia entre os seres vivos, lixos no meio das pessoas, transportes urbanos (t√°xis e toca-tocas) em degrada√ß√£o e sem pol√≠ticas de manuten√ß√£o e regras que pautam pelo conforto e seguran√ßa para as pessoas que usufruem deles, entre outros cen√°rios. Mas tamb√©m considero Bissau como a cidade do avesso, ou seja, tudo acontece ao contr√°rio e de uma forma inimagin√°vel.

√Č, sem sombra de d√ļvidas, uma cidade onde, no que diz respeito a companheirismo, acontece imensamente entre as pessoas. Da mesma forma acontece ao contr√°rio, ou seja, a falta de civismo, denota-se tanto entre os pi√Ķes como entre os pr√≥prios motoristas, pois, nos discursos di√°rios nota-se raiva impingida nas bocas que mandam uns aos outros.

Tudo acontece do avesso porque tanto se pode ver as pessoas a se desculparem de atitudes menos positivas como também se pode ver pessoas a discutirem por uma situação muito banal e que não merece tempo de antena.
√Č tamb√©m um uma cidade onde n√£o d√° para perceber se est√° em mudan√ßa para positiva ou est√° estagnada, tanto ao n√≠vel das mentalidades dos seus habitantes como tamb√©m de institui√ß√Ķes pol√≠ticas e privadas do pa√≠s. Pois, at√© se pode ouvir na boca do povo uma frase comum e repetitiva ‚ÄúBissau bu ta bai nam t√© ma si bu riba bu ta odjal di memu manera ku bu dissal‚ÄĚ. Ou seja, podes viajar durante muitos anos, mas encontrar√°s Bissau da mesma maneira que a deixaste.

Isso se pode refletir n√£o s√≥ na falta de civismo e atitudes positivas entre as pessoas incluindo os motoristas que andam constantemente numa correria para ver quem ganha ou chega primeiro, para ter mais passageiros, como tamb√©m na falta de a√ß√Ķes por parte dos pol√≠ticos no sentido de se notar alguma transforma√ß√£o da cidade que √© composta por mais de uma d√ļzia de bairros sem boas condi√ß√Ķes de habita√ß√£o e de acesso que facilite uma boa passagem de pi√Ķes ou carros.

Assim continua a cidade das cores e almas vivas, sem proje√ß√Ķes que valham mudan√ßas significativas de mentalidades e de infraestruturas.

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU РCONTRARIAR O MACHISMO

GUIN√Č-BISSAUūüá¨ūüáľ: As 3 Palmadas

Sair de ti, Guiné-Bissau, com as lágrimas de saudade por causa das pessoas que ficaram, coisas por fazer, e de medo, sobre o que não se sabe, o que não se conhece. Mas com imensa vontade de crescer, de alargar os horizontes, leva e levou muitas pessoas nascidas guineenses a procurarem outros destinos. Imensas pessoas sem vontade de retorno à terra que as viu nascer. Outras, com vontade mas sem recursos.

H√° in√ļmeros casos de abandono da terra natal, mas que vale em dois sentidos: pessoas guineenses que j√° “n√£o querem saber da Guin√©-Bissau” e a Guin√©-Bissau n√£o querer saber dos seus “filhos”.

Prefiro optar por descrever a segunda op√ß√£o, de que a Guin√©-Bissau despreza os seus. Pois, independentemente dos governantes, que √© a causa maior do abandono que as pessoas guineenses nutrem, o pa√≠s continua a n√£o olhar para si pr√≥prio. Seguem-se v√°rios governos e o pa√≠s mant√©m-se no mesmo s√≠tios, sem grandes mudan√ßas muito menos transforma√ß√Ķes.

Chega-se ao √ļnico aeroporto do pa√≠s (Aeroporto Internacional Osvaldo Vieira), sente-se na pele tr√™s coisas imediatas: o calor, longa fila de espera e pessoas de Estado a pedir “esmola”.

No que toca ao calor, pouco ou nada se faz e/ou se pode fazer. As altera√ß√Ķes clim√°ticas t√™m revelado um elevado √≠ndice de subida de temperaturas, provocadas pela explora√ß√£o desmedida dos recursos naturais do planeta levadas a cabo pelas grandes ind√ļstrias internacionais, residentes, sobretudo, no Norte Global, e o Sul Global acaba por sofrer grande parte dessas consequ√™ncias, com secas severas, inunda√ß√Ķes e aumento dos n√≠veis do mar e aus√™ncia de chuva.

A Guiné-Bissau, sendo um país localizado no Sul de Sahara, com recusos naturais invejáveis, infelizmente, sofre imensamente com este fenómeno. Pois, os poucos recursos de proteção da biodiversidade que o país possui estão cada vez mais ameaçados, fruto de uma governação inconsiste e sem compromissos sérios no que diz respeito a preservação do país, a vários níveis.

Em rela√ß√£o √† longa fila de espera que se pode notar no aeroporto, √© reveladora de uma falta de organiza√ß√£o n√£o s√≥ no aeroporto, como tamb√©m na pr√≥pria estrutura do pa√≠s. √Č extremamente triste deparar com imenso calor ao aterrar e ao mesmo tempo ficar estagnado numa fila a mais de uma hora depois da hora de chegada. Pois, sendo um pa√≠s pequeno, seria mais f√°cil manter todas as estruturas bem organizadas e engajadas na satisfa√ß√£o da necessidade das pessoas guineenses ou visitantes.

Outro aspeto lament√°vel que se pode notar a sa√≠da do aeroporto de Bissau, √© passar pelos seguran√ßas que pedem “esmola”. Pois, para al√©m de as pessoas trabalhodoras nas institui√ß√Ķes p√ļblicas (Estado) arranjarem imensas desculpas para abrir malas dos passageiros sem necessidade para tal, ainda procuram endossar as suas vozes para conseguir algum dinheiro extra a conta dos viajantes, que por sua vez, chegam cansados, ensopados de suor e extremamente stressados de tanto esperar na fila.

Contudo, enquanto o país, através dos seus governantes, não voltar os seus olhos para os seus filhos e para as suas necessidades, de todos os géneros, continuará a ser extremamente explorado, com imensa riqueza natural e humana mas sem frutos que valham a proteção do ambiente, uma estrutura mais organizada a começar do aeroporto até ao porto de Bissau, e também pessoas com vínculos ao Estado mais responsável e dignificadas pelo trabalho que fazem, sem alimentarem, cada vez mais, o espírito pedinte que o próprio país protagoniza.

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU РCONTRARIAR O MACHISMO.

GUIN√Č-BISSAUūüá¨ūüáľ: Ke Ku N√ī Misti Ku N√ī Djugaduris?

A pergunta podia se estender para todas as organiza√ß√Ķes e institui√ß√Ķes que fazem o pa√≠s existir e ao mesmo tempo reproduzem a falta de necessidades b√°sicas que possam impulsionar o progresso.

Mas, sem querer generalizar, olhemos profundamente sobre o que queremos com os nossos jogadores e também a Federação, de modo geral.

O fácil, todos nós o conseguimos, quase, instantaneamente. Ou apontar o dedo ou a solidarizar-se. Mas e o meio termo?

No que diz respeito √† apontar o dedo, muito poucos o fazem de uma forma s√©ria e cr√≠tica. Por um lado, √© muito prov√°vel que, como um s√≥ povo, tenhamos dito “e sabotiano; e ‘medinu’ nam; marroquinos mau; etc…”. Por outro lado, assumir que n√£o se pode admitir coisas semelhantes, a FIFA e a Federa√ß√£o Marroquina de Futebol t√™m que averiguar o que se passou e punir os culpados.

Em relação à solidariedade, outra característica muito comum nos guineenses, reagimos muito rapidamente tanto para o bem, como para o mal. Neste caso específico, que a Seleção está a passar, damos uma parte do nosso coração, demonstrando que estamos juntos.

Mas e depois disso? Ou se quisermos complicar ainda mais, podemos perguntar: de que modo é gerida a alimentação dos jogadores, tanto quando jogam em casa como quando vão jogar fora? Quem são os nutricionistas e os cozinheiros da Seleção? Ah, e podemos questionar ainda mais: Será que temos médicos que acompanham rigorosamente os jogadores em cada encontro da Seleção?

Podiam surgir muitas quest√Ķes. Mas no que toca a alimenta√ß√£o dos jogadores deve-se (a Federa√ß√£o) ter em conta que √© t√£o importante, como ganhar jogos. Caso contr√°rio, deixaremos tudo “na mon di Deus“, e pelo que sei, Deus tem muitas coisas com que se preocupar…

Há muitos exemplos que a Federação de Futebol da Guiné-Bissau podia seguir, um deles e que está sob o nosso alcance é a forma como se mobilizou para a luta armada de libertação. Cabral não acordou de repente e decidiu ir à luta contra os colonizadores. Houve desenhos de estratégia de combate, em que todas as frentes contavam.

No caso da Federa√ß√£o, se realmente querem que os Djurtus n√£o s√≥ ganhem jogos, como tamb√©m levem a ta√ßa do CAN e cheguem a fase de grupos do Mundial (e possivelmente ganhar o Campeonato do Mundo), ent√£o deve-se valorizar e muito: a √ļltima refei√ß√£o dos jogadores antes de se juntarem todos; o que v√£o comer durante o est√°gio e quantas vezes; como v√£o ser confecionadas as refei√ß√Ķes e em que condi√ß√Ķes.

Todos os pormenores s√£o importantes, e no que toca a alimenta√ß√£o a exig√™ncia tem que ser redobrada. N√£o podemos querer ganhar jogos se n√£o tivermos uma boa alimenta√ß√£o antes. E se existisse uma equipa de cozinheiros espec√≠fica s√≥ para a sele√ß√£o guineense, com todas condi√ß√Ķes, seria improv√°vel que acontecesse uma intoxica√ß√£o alimentar que resultasse no cancelamento do jogo.

Comer bem é muito mais importante do que jogar e ganhar jogos. Não se consegue nem jogar, nem ganhar jogos, se os jogadores não comerem bem.

E agora volto a perguntar o seguinte: Ke Ku N√ī Misti Ku N√ī Djugaduris? Kum√™ dritu i ganha djugu ou simplesmente p√° e djuga?

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU-CONTRARIAR O MACHISMO

GUIN√Č-BISSAUūüá¨ūüáľ: Responsabilidade (Inter)Geracional

H√° precisamente um m√™s, recebia uma mensagem no Messenger cujo conte√ļdo desafiava-me (e a muitos guineenses) a escrever uma reflex√£o sobre a responsabilidade geracional dos jovens guineenses. Como √© natural, aceitei com todo o agrado, pois, nutro um grande respeito e admira√ß√£o pela pessoa que partilhou a iniciativa comigo.

Assumo desde j√° que todas as alturas, ao longo dos 47anos da independ√™ncia da Guin√©-Bissau, foram (e s√£o) oportunas para refletir sobre as quest√Ķes (inter)geracionais. E temos notado esse envolvimento a v√°rios n√≠veis e de v√°rios quadrantes, tanto nas redes sociais, como nas bancadas, nos f√≥runs partid√°rios e/ou no parlamento. Sem deixar de lado as important√≠ssimas contribui√ß√Ķes das organiza√ß√Ķes da sociedade civil que, infelizmente, n√£o s√£o tidas em conta.

Todas essas reflex√Ķes revelam tanto o potencial que os guineenses t√™m como tamb√©m acabam por, muitas vezes, demonstrar que Continuamos aqu√©m do que poder√≠amos estar no que respeita a encarar alguns assuntos com a devida seriedade, sobretudo quando comparados com outros pa√≠ses africanos.

Aproveito o desafio que me foi lan√ßado para manifestar, mais uma vez, a minha solidariedade para com os jovens da Galeria Jovem da Guin√©-Bissau, que, infelizmente, viram uma das suas obras emblem√°ticas a ser destru√≠da. Por outro lado, trazer essa discuss√£o sobre a Responsabilidade (Inter)Geracional que os jovens devem assumir perante um pa√≠s que continua num caos…

Falar da Galeria Jovem, tanto a manifestar sentimentos de felicidade pelo trabalho que têm feito como também pela solidariedade por ver vandalizada uma das suas obras, é sempre comovente. Iniciaram um percurso que não deixou ninguém indiferente, não só pelo engenho que têm e demonstram nas suas obras como pela urgente necessidade que sentiram em chamar os grandes heróis da luta a convivirem diariamente com a população guineense, através de murais pintados.

Esta a√ß√£o mostra a verdadeira import√Ęncia e vontade que os jovens t√™m em assumir responsabilidades e deixar legado hist√≥rico √†s futuras gera√ß√Ķes. Mas, por outro lado, acabamos por ver que a gera√ß√£o dos nossos pais n√£o nos deixou grandes coisas com as quais nos podemos orgulhar. Com excep√ß√£o de organiza√ß√Ķes como a ONG Tiniguena, o IBAP (Instituto da Biodiversidade e das √Āreas Protegidas) e os trabalhos incans√°veis no campo da cultura atrav√©s do √≠cone da m√ļsica moderna guineense, Jos√© Carlos Schwarz, no que toca ao desenvolvimento comunit√°rio, mais propriamente o papel das r√°dios comunit√°rias no desenvolvimento da Guin√©-Bissau, temos o exemplo de Pepito, e ainda os trabalhos desenvolvidos por Roberto Quessangue no setor de Bo√©, regi√£o de Gab√ļ. Ao contr√°rio destes exemplos, encontramos tentativas de apagar a hist√≥ria e anular a exist√™ncia e conviv√™ncia di√°ria com a arte nas nossas ruas, como aconteceu ao mural de Tchico T√©.

A gera√ß√£o dos nossos pais, em grande parte, tentou, a v√°rios n√≠veis, fazer trabalhos de que se orgulhar-se simplesmente, sem se lembrar de deixar um importante legado √†s gera√ß√Ķes pr√≥ximas. Ou seja, n√£o houve muitos trabalhos pensados a longo prazo.

Na tentativa de reescrever a hist√≥ria, atrav√©s da arte urbana, de maneira a que se possa assumir a responsabilidade geracional e deixar legado √†s futuras gera√ß√Ķes, viu-se estragada uma obra que durou semanas a ser erguida. Acontecem e aconteceram muitas situa√ß√Ķes semelhantes, em que os jovens procuram assumir, de alguma forma, as r√©deas do pa√≠s enquanto as gera√ß√Ķes anteriores a impedirem a todo custo que isso aconte√ßa, o que revela tamb√©m um cont√≠nuo desfoco em trabalhar e projetar o pa√≠s que queremos e podemos ter.

Com isso, apesar de todos os esfor√ßos e todas as dificuldades que existem no nosso pa√≠s, h√° que ter em conta alguns aspectos fundamentais: primeiro, consolidar a uni√£o entre os jovens, mesmo que tenhamos opini√Ķes diferentes; segundo, preservar o nosso maior patrim√≥nio que √© o nosso pa√≠s, a todo custo; quarto, n√£o planear ou fazer coisas a pensar nas resolu√ß√Ķes imediatas, mas sim, a pensar nas gera√ß√Ķes futuras; quinto, aproveitar-se da rebeldia juvenil para p√īr em causa todas as ideias que nos s√£o “vendidas”; sexto, procurar cada vez mais a sabedoria, de forma a podermos lidar civilizadamenre com as quest√Ķes complexas do nosso pa√≠s...

Est√°s anota√ß√Ķes, s√£o uma pequena parte daquilo que todos os jovens guineenses deveriam ter em conta, de forma a podermos deixar as futuras gera√ß√Ķes orgulhosas do trabalho que fizermos.

Não fiques à espera, abraça o desafio da responsabilidade geracional e revela aquilo que achas fundamental para os jovens terem em conta, e ao mesmo tempo trabalharem para isso.

O nosso pa√≠s est√° nas nossas m√£os, e cada um de n√≥s √©, de alguma forma, respons√°vel pelos aspetos positivos e negativos que nos t√™m acompanhado desde a tomada de independ√™ncia. Por isso, reforcemos a mensagem que levaram os antigos combatentes a lutar pela liberta√ß√£o do nosso pa√≠s, e sigamos o exemplo para voltar a libert√°-lo deste n√≥ que dura h√° tanto tempo…

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU РCONTRARIAR O MACHISMO.

GUIN√Č-BISSAUūüá¨ūüáľ: Os Nossos Prestigiados, Sempre!

Em todos os momentos, em todas as a√ß√Ķes e em cada palavra que estes tr√™s utilizam, no dia-a-dia, nos seus trabalhos ou nas conversas informais, demonstram um grande sentimento de que √© poss√≠vel fazer um novo pa√≠s,  reconstruir novos modos de pensar e agir, independentemente das circunst√Ęncias.

Estamos, certamente, a referir-nos ao Pai do romance Guineense, que ousou escrever e publicar o seu primeiro livro e primeiro romance numa altura em que poucos acreditavam nele e ao mesmo tempo numa época em que a confusão que existia no país, não dava margem para pensar em escrever ou publicar as próprias histórias do país, sobretudo romanceadas.

Estamos, também a falar de um exímio ativista e pesquisador de assuntos guineenses e africanos, que não se deixou levar pela ilusão que o Ocidente projeta, e esta em casa, na Guiné-Bissau. E, apesar de todas as impossibilidades que o país apresenta aos seus cidadãos, ele continua a trabalhar arduamente e a demonstrar que é possível sonhar, mas mais do que sonhar é possível honrar a história e fazer o país que todos desejamos.

Estamos, mais uma vez, a referir-nos ao jovem ator e realizador, dividido entre v√°rios mundos, mas afincadamente guineense e africano, porque est√° mais do que patente nas suas pe√ßas de teatro e cinema, e √© aquele que independentemente das suas obras demonstra nas suas interven√ß√Ķes que podes-se ser e fazer parte da periferia mas isso n√£o pode limitar a cria√ß√£o e a mostrar ao mundo que s√≥ √© poss√≠vel torn√°-lo completo e um lugar habit√°vel para todos os seres, atrav√©s das a√ß√Ķes comprometedoras de inclus√£o, independentemente das √°reas de atua√ß√£o.

Estamos a falar de Abdulai Silá, escritor e primeiro romancista guineense. Estamos a referir-nos a Miguel de Barros, Sociólogo e Ativista da Guiné-Bissau. Estamos a falar também de Welker Bungue, ator e realizador guineense da Guiné-Bissau.

Estes tr√™s, s√£o os nossos prestigiados da Guin√©-Bissau pelos Pr√©mios RTP √ĀFRICA 25 ANOS, nas √°reas de Literatura Teatral, Sociedade Civil, e Cinema.

Os que lutaram pela libertação do país, os jovens (rapazes e raparigas), todos os guineenses, independentemente da idade, agradecem o vosso trabalho e a vossa entrega pela demonstração da verdadeira GUINEENDADI.

OBRIGADO ABDULAI SIL√Ā, OBRIGADO MIGUEL DE BARROS, OBRIGADO WELKET BUNGUE.

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Os 3 Pr√©mios Prest√≠gios para Guin√©-Bissau ūüá¨ūüáľ

GUIN√Č-BISSAUūüá¨ūüáľ: Por Que N√£o ?

Ela, a Titina Silá, como é conhecida pelos guineenses e não só, é também chamada de Ernestina Silá (nome dado à nascença) .

Assassinada ainda jovem, com apenas 30 anos (1943-1973), numa emboscada montada pelos tropas portugueses, no Rio Farim (norte da Guiné-Bissau).

Não é novidade para os guineenses que a Titina Silá é símbolo da Mulher Guineense. Lutadora, Cuidadora, e muitos mais adjetivos que norteiam a sua figura. Tal como de muitas mulheres.

Hoje, 30 de Janeiro, data da sua morte, também marcada como Dia Nacional da Mulher Guineense, à sua memória e de todas as mulheres que lutaram contra o colonialismo, pela libertação do povo da Guiné e de Cabo Verde.

√Č, sem d√ļvida, uma data que n√£o s√≥ serve de lembran√ßa da nossa Hero√≠na e de todas as mulheres que lutaram pela terra, como tamb√©m para recordar a condi√ß√£o das mulheres guineenses no contexto atual.

H√° muito que as jovens e mulheres, n√£o t√™m recebido um tratamento digno de que merecem, sob v√°rios dom√≠nios, desde educa√ß√£o, apoios nos seus neg√≥cios, igualdades de oportunidades, respeito na forma de tratamento, etc… E estamos, como pa√≠s, a continuar com a heran√ßa colonial do esp√≠rito de Matchundade, a construir, cada vez mais, uma sociedade desigual e extremamente machista.

√Č certo que, muitas raparigas e mulheres, possuem for√ßas que as permitam virar este mundo e outro para conseguirem o que desejam, sem se submeterem aqueles que se armam em “dunus di terra“. E √© certo, tamb√©m, que h√° imensas jovens e mulheres que temem em abandonar essa submiss√£o, por medo, por n√£o terem suporte nenhum por parte do Estado e tamb√©m por parte da sociedade, como um todo. O que, certamente, entristece a qualquer guineense que zela pelo bem estar das mulheres e raparigas, pela igualdade de g√©nero e de oportunidades, pela emancipa√ß√£o das mulheres em todos os dom√≠nios.

E pergunto, “por que n√£o?” N√£o porque n√£o se sabe raz√Ķes que levam a esta constru√ß√£o social triste que nos acompanha. Mas sim, pergunto, porque √© mais do que hora colocar a quest√£o do g√©nero em todos os programas e projetos, desde as associa√ß√Ķes juvenis nos bairros at√© nos √≥rg√£os da soberania. Lutar pela n√£o limita√ß√£o da condi√ß√£o das mulheres, e ao mesmo tempo n√£o ficar s√≥ pelas indigna√ß√Ķes, reivindica√ß√Ķes, celebra√ß√Ķes, mas partir para a√ß√Ķes que projetam e efetivam mudan√ßa das mulheres na sociedade guineense.

Tal como o Movimento Mindjeris Ika Tambur (as mulheres n√£o s√£o tambores), que criou uma din√Ęmica que permite resgatar mulheres dos maus tratos dos maridos, das viola√ß√Ķes, dos ass√©dios e de muitas outras formas de discrimina√ß√£o e viola√ß√£o dos direitos das mulheres e raparigas, tamb√©m pode-se como indiv√≠duo comum ousar enfrentar atitudes que v√£o contra o respeito √† dignidade das mulheres. Seja homem ou mulher, o mais importante √© contrariar os v√°rios cen√°rios que levam √† submiss√£o absurda das mulheres.

A Titina, onde quer que esteja (creio que está entre nós), estará desiludida pela forma como desrespeitam as mulheres guineense, desde crianças até se tornarem adultas. E da mesma forma que se lutou pela libertação do país, também pode-se lutar pela libertação da submissão das mulheres junto dos maridos e/ou namorados vestidos de espírito de Matchundade.

Paz a sua alma, Heroína da Luta. E paz às almas de todas as mulheres que lutaram pelo país e que ficaram pelo caminho, a conta das balas na guerra colonial ou a conta das violências domésticas na Guiné-Bissau.

A luta pela emancipação das jovens e mulheres guineense não pára. Todos juntos, homens e mulheres, por uma sociedade mais justa e igualitária.

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Mural de Titina Sil√°
Autores: YOUNG NUNO e GALERIA JOVEM

GUIN√Č-BISSAUūüá¨ūüáľ: O Habitual

√Č, quase, imposs√≠vel deixar a data de hoje (20 de Janeiro) passar despercebida. √Č uma data que n√£o s√≥ me moldou como pessoa, como tamb√©m me ajudou a construir o meu eu po√©tico.

Acontecia sempre a cada 20 de Janeiro, desde 2006, em que me davam poemas para recitar num momento solene em mom√≥ria do assassinato de Am√≠lcar Cabral (pai da independ√™ncia da Guin√© e Cabo Verde), no Quartel Militar de Gab√ļ. Essa atividade de homenagem ao desaparecimento de Cabral, era e ainda √© organizada pela minha antiga escola Unidade Escolar 25 de Abril de Gab√ļ (Guin√©-Bissau).

A interação que se criava com os militares era genuína. Todos respeitavam todos e cada um. Desde os ensaios que começavam duas semanas antes, até no próprio dia 20 em que todas as grandes figuras da região e os alunos de todas escolas se encontravam.

Esses momentos de homenagem moldaram, e muito, o meu sentido poético, porque dava tudo no recitar dos poemas. Chegava a chorar e a fazer outros chorarem. E hoje, como nos outros anos, faço o mesmo, não deixar a data passar despercebida.

Deste modo, apresento-vos um Poema, inspirado na imagem do quadro pintado pelo punho do artista plástico guineense YOUNG NUNO. De referir que, o próprio Nuno, quando terminou a pintura desafiou-me a escrever um poema sobre o retrato que faz de Amílcar Cabral. O desafio foi aceite já há algum tempo. E hoje cumpro o desafio.

“PENSAR PARA MELHOR AGIR”

O que seria de nós sem pensar?
Que pensamentos teríamos
nós para caminhar?
Para que caminho andaríamos
se n√£o pensar?
√Č no pensar que tudo
se ganha antes tudo.

Os tropeços no caminho
s√£o resultados do mau pensar.
Pensar melhor deu-nos vitória
na luta.
Pensar melhor deu-nos a Terra,
o Estado, a Nação.
A identidade, a nacionalidade,
a cultura, a nossa Guinendadi.
Tudo, foi graças ao pensar melhor.

Se lamentamos as nossas a√ß√Ķes,
√Č porque falhamos em algum
pensamento antes de qualquer ação.
Cabral sempre disse, no tempo
da luta: “Pensar para melhor agir
e agir para melhor pensar. “
Foi assim que se salvou o país na luta.
Só assim é que salvamos o país,Agora!


#MANOF7INSTRUMENTS

Retrato de Amílcar Cabral.
Autor do quadro: YOUNG NUNOūüá¨ūüáľ

GUIN√Č-BISSAUūüá¨ūüáľ: Bissau Na Limpu

Quem diz “Bissau”, subjacentemente, estar√° tamb√©m a referir outras zonas do pa√≠s. E sim, Bissau n√£o √© s√≥ Bissau, apesar de ser a capital da Guin√©, √© ao mesmo tempo outras capitais das regi√Ķes administrativas e todas as tabancas que fazem parte do territ√≥rio guineense.

BISSAU NA LIMPU (Bissau vai estar limpa), e j√° est√° a ficar. H√° cerca de um ou dois anos, que estamos a ver que, realmente, a cidade vai estar limpa. E o acordar dessa consci√™ncia, pelo que sei e tive conhecimento, come√ßou fortemente com o trabalho de Juviano Landim com o seu projeto de limpeza na capital, cujo slogan √© “EM BUSCA DA CIDADE MAIS LIMPA DE √ĀFRICA E DO MUNDO“.

Atualmente, constatamos a ocorrência do Campeonato de Limpeza entre Bairros da Capital (Bissau), onde os citadinos das localidades são chamados a retirarem os lixos das suas ruas de forma a manterem os bairros da capital em bom estado. E o campeonato está muito competitivo. (Desejo, o alargamento desta iniciativa para todo o país).

Ao longo do quase meio s√©culos da Independ√™ncia do pa√≠s, a aus√™ncia do Estado √© notada em quase tudo, o que “obriga” os cidad√£os a terem e impulsionarem iniciativas deste g√©nero. Afinal de contas “ESTADO I AN√ĒS TUDO” (como dizia um rapper guineense).

√Ä semelhan√ßa deste Campeonato de Limpeza, tamb√©m um grupo de jovens artistas procuram com os seus engenhos “limpar as paredes da cidade”, ou seja, dar um novo olhar a capital Bissau atrav√©s da arte urbana. A GALERIA JOVEM, sob lideran√ßa de YOUNG NUNO prometem continuar a (re)erguer a hist√≥ria da Guin√©-Bissau atrav√©s daquilo que sabem fazer – PINTAR PAREDIS, com conte√ļdos hist√≥ricos incluindo caras dos Her√≥is da Luta pela Independ√™ncia.

Já vão na terceira obra de arte, e desta vez convocam DOMINGOS RAMOS (1935-1966), a estar numa das paredes do centro de Bissau, a olhar e a presenciar não só passos dos citadinos a andarem de um lado para o outro, como também estar de olhos para aqueles que pretendem levar o país para os caminhos inglórios ou vender a pátria.

Tal como o conheceram (DOMINGOS RAMOS) na altura da Luta, pela sua disciplina, convicção e determinação, assim está retratado pelos jovens artistas da GALERIA JOVEM, para estar intacto na parede e nunca desviar o olhar sobre os corruptos da capital guineense.

Para além do reerguer do Cambatente RAMOS, pode-se notar a presença de todos os grupos etários, desde crianças até as pessoas idosas, na parede a caminhar em busca da Liberdade, que foi comprometida no passado e que hoje continua a ser pela falta de um sentido unificador que possa determinar e garantir a LIBERDADE pela qual os heróis sonharam e lutaram nas matas da Guiné.

Numa dist√Ęncia de 22 metros de parede, tamb√©m pode-se notar a presen√ßa de m√£es com filhos √†s costas, e os deficientes em busca da Liberdade, o que demonstra uma necessidade urgente de (re)construir um pa√≠s inclusivo onde TODOS CONTAM. Ainda os jovens convocam a reflex√£o, atrav√©s das suas artes, o sentido da preserva√ß√£o da biodiversidade guineense.

Com isso, vê-se retratado na parede os animais selvagens sob uma paisagem encantadora, diferentes árvores (no tamanho e na espécie) em boa conservação, e ainda uma habitação. Diria que está retratada nesta obra de arte uma HARMONIA entre os seres vivos, e que busca acordar a consciência dos guineenses e não só, no sentido da preservação da Biodiversidade do pais e do planeta.

Como o pr√≥prio NUNO (l√≠der da GALERIA JOVEM) afirma, “Cada kim p√° i ocupa na ke ki bom nel pa contribui pa terra(Cada um que fa√ßa aquilo que sabe fazer para contribuir para o pa√≠s). E mais uma vez, manifesto a minha gratid√£o por este Trabalho e ansioso pelos pr√≥ximos.

OBRIGADO YOUNG NUNO + GALERIA JOVEM, pa Caminhos Urbanos Continua, SEMPRE…

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU РCONTRARIAR O MACHISMO

YOUNG NUNO + GALERIA JOVEM [mural a céu aberto, DOMINGOS RAMOS (1935-1966)]
YOUNG NUNO +GALERIA JOVEM [mural a céu aberto- DOMINGOS RAMOS (1935-1966)]