MUNTU_CM ♂️♀️:MBadi, O Homem do Sul

Eram ele, Mbadi, e o seu irmão mais novo, Nabi, as pessoas mais idosas da Tabanca de Madina. Primeiro morreu o irmão e ele, Mbadi, deixou-nos no dia 15 de Novembro, mas sem nunca nos abandonar.

Eu e a Chloe, colega a quem ajudo a terminar a investigação para o seu doutoramento, sobre conhecimento ecológico local, na Floresta de Cantanhez, decidimos ir para a Daruda. Connosco foi também Helena, igualmente investigadora da mesma temática, mas mais voltada para o comportamento e movimentos dos chimpanzés e macacos.

A mini-tabanca de Daruda, onde se encontrava o Mbadi, só tem seis casa e a casa do Senhor é a primeira ao chegar. Quando chegamos para a entrevista, estavam seis pessoas em casa, o Mbadi, a sua mulher, a vizinha (que também é da família), o seu filho, a mulher do seu filho e o neto, de dois aninhos.

Como é habitual, cumprimentamos e perguntamos se seria possível conversarmos um bocadinho sobre a história da tabanca, a Mulher do Mbadi que estava a descascar chabeu com a sua vizinha respondeu que podia ser complicado, porque quem nos podia contar história da tabanca está doente. Falava ela e a referir ao Senhor Mbadi, que de imediato disse não estar a sentir bem, estava com tosse, não podia falar muito e com os seu pés muito carregados. Constatamos tudo isso. Mas insistimos que qualquer pessoa podia falar e acabamos por chamar o filho do senhor Mbadi, que estava a afiar a sua catana numa pedra debaixo do limoeiro.
Sentamos todos e começamos a conversar, o Mbadi estava realmente cansado e não falou muito, mas a sua presença e interação era muito animada e confirmava ou não algumas afirmações que a sua mulher proferia sobre a história da tabanca.
Contava-nos ele, Mbadi, quando lhe perguntámos diretamente sobre a sua relação com os chimpanzés, confirmou-nos de uma forma lenta e segura de que os chimpanzés são muito chatos quando não têm alimentação nos seus habitats e confirmou-nos também a história de que os chimpanzés não têm medo das mulheres e crianças.

Foi muito interativo e engraçado a nossa conversa na casa do Senhor Mbadi, pois, a cada foto de animal que lhe mostravamos reagia de uma forma curiosa e sorridente, sinal de que guarda imensa histórias sobre a sua relação com os animais e a floresta, mas não podia falar porque estava com dores, mas também de alguém não mostrava-se muito abatido.
Quando nos despidimos, ele nos disse que precisava de medicamentos para se curar, a tosse não lhe largava. Dá nossa parte conseguiu uma amêndoa pelas mãos de Chloe, e dissemos-lhe que ajudaria a tossir menos e ele agradeceu reforçando que precisava mais de medicamentos para se curar de vez. Respondeu a Helena com quem interagiu mais, de que vai ver o que seria possível fazer.

Estas pequenas observações sobre a presença do senhor Mbadi na nossa primeira entrevista de grupo foi muito importante, porque nos possibilitou conhecê-lo e criar algumas ligação com ele antes da sua morte, tornando-se assim um ancestral que muito estimamos pela sua receção e seu sorriso.

Exemplo de vida como esse pelo sul, e não só, são incontáveis, o que revela a necessidade de dar alguma atenção aos mais velhos que, outrora, foram guardiãos dos nossos matos sagrados. É triste passar por imensas casas vendo pessoas idosas a sofrerem a cada segundo das suas respirações, sem atenção devida por parte dos governantes e com ausências absurdas dos centros de saúde nas comunidades.
Continua-se a fingir que se trabalha enganando constantemente as populações locais, fazendo-se de ricos enquando o povo sofre.

Obs: No momento em que estou a escrever, ouço na voz de uma mulher vizinha a dizer o seguinte “e ano, pa ka ninguim brinca ku kumida”. Ou seja, este ano que ninguém brinque com a comida/alimento.

Esta afirmação denúncia a falta de assistência às pessoas do sul, e outras partes do país também, que diariamente partilham o que comem com animais do mato, principalmente os chimpanzés. Está-se a sofrer imensa fome pela ausência de políticas de combate à fome e a pobreza no nosso país. Prova disso, basta passar pelo sul e ouvir histórias de pessoa carne e osso.

As urgências são enormes. É preciso falar, contar histórias, deixar registos e provocar mudanças.

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU – Contrariar o Machismo. Vencedor do Prémio Literário José Carlos Schwarz na Guiné-Bissau 2022.

MUNTU_CM ♀️♂️: Muntu Para as Meninas

Há uma conceção já clarificada em muitas ocasiões desde a criação do Projeto Muntu-Contrariar o Machismo, e também de outras fontes de pesquisa (Boulaga, 1977, Bono, 2014 e outros) que determinam que ao falar de Muntu, pode-se estar a referir ao Ser, em suas várias dimensões. Tanto no Ser Pessoa (naturalmente) Humana, Ser enquanto parte da sua Comunidade e também na sua dimensão da Força Divina, ou seja, Ser Deus, Ser em Crise e entre outras que, como Ser, nutre em si toda a força vital englobada na sua aura de super-poder.

Perante estas várias conceções, as mulheres e meninas, enquanto seres naturalmente poderosas, mas que, socialmente, lhes condicionam a desempenhar papéis de segunda instância, podem assumir as suas forças vitais numa sociedade que procura, cada vez mais, continuar a coloca-las no lugar de escuta.

Este desafio, para além de partir do interior e/ou assumido individualmente por cada mulher ou menina, deve primeiramente, ser assumido pelas estruturas sociais voltadas para a defesa dos direitos das mulheres e meninas, de modo a não ficarem simplesmente pelo empoderamento individual, mas sim um empoderamento de grupo, de forma a poderem enquanto estruturas desafiarem a norma vigente.

Com isso, e também através de trabalhos de base voltados para a mudança de mentalidade, é possível provocar a construção de uma sociedade onde todos os seres vão contar e ninguém será deixado para trás. Pois, estamos perante desafios mundiais que refletem diariamente no nosso quotidiano, o que nos obriga a todos enquanto Seres Muntu (mulheres, meninas, rapazes e homens) a assumir os nossos papéis na transformação da nossa realidade, essa realidade violenta e discriminatória que oprime, condiciona e acaba com a vida das mulheres e meninas.

Às mulheres nos espaços de tomada de decisão devem assumir, ainda que “tarde”, as suas responsabilidades perante a luta urgente que visa a procura de equilíbrio nos espaços de poder nas estruturas macro, o que possibilitará que se possa viabilizar muitas propostas educativas, legislativas e de uma existência permanente de mulheres nos lugares de poder sem pré-julgamentos ou condicionamentos constantes sobre as posições que assumem ou que pretendem assumir.

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU – Contrariar o Machismo. Vencedor do Prémio Literário José Carlos Schwarz na Guiné-Bissau – 2022.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
Boulaga, E. F. (1977), La crise du Muntu- authenticité africaine et philosophie, Présence Africaine.; Bono, E. L. (2014), Muntuísmo – A ideia da pessoa na filosofia africana contemporânea, Editora Educar.

MUNTU_CM ♀️♂️: Uso da Cultura para Valorização das Mulheres

A Cultura. A Valorização. As mulheres. Uma análise baseada em três dimensões que nos leva a reflectir sobre a condição e a forma como as mulheres estão perante os sinais relacionados à sua valorização na sociedade guineense.

Para uma leitura completa basta clicar no link aqui.

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU – Contrariar o Machismo. Vencedor do Prémio Literário José Carlos Schwarz – 2022.

MUNTU_CM ♂️♀️: Exposições no Feminino

Março permite sempre olhares diversos sobre a mulher, a sua condição enquanto ser social e a forma como é vista e tratada.

Na Guiné-Bissau, como em muitos países, o mês de março marca-se sempre por uma série de atividades que buscam reforçar a importância da mulher na sociedade enquanto ser com voz, ouvida, mas não tida em conta.

O Projeto Muntu – Contrariar o Machismo, através do seu idealizador, esteve presente em duas exposições propositadamente no feminino.

Foram pensadas, executadas e apresentadas no feminino por representarem e mostrarem não só a condição em que a mulher é colocada, como também a forma como é retratado socialmente, demonstrando artisticamente os seus dia à dia nas correrias de manter as suas vidas e das pessoas que fazem parte do seu núcleo com dignidade e ainda os instrumentos que as mulheres de outrora preservavam com muito carinho por serem coisas que lhes permitia passar os dias de uma forma mais digna e com menos dificuldades. Estamos a referir a EXPOSIÇÃO ROSA GUMI, idealizada por Rui Jorge Semedo, politólogo guineense e a EXPOSIÇÃO “SUBSTANTIVO FEMININO – A ARTE” de YOUNG NUNO, artista plástico.

A primeira Exposição (ROSA GUMI), teve a sua estreia no dia 8 de Março, Dia Internacional da Mulher. É uma exposição itinerante, onde deu o seu início no Centro Cultural Português de Bissau, demonstrando artefactos domésticos que a Mãe ROSA GUMI e muitas Mães guineenses utilizavam nos seus espaços domésticos e diariamente, o que serviu de resgate da memória coletiva sobre a forma como as mulheres passavam as suas vidas em casa. Pode-se ver nesta exposição materiais domésticos como: candeeiro, tábua, tanque de lavar roupa, puti di bibi, bambaram, fogareiro, carvão, caçarola e entre outros.

A segunda Exposição (SUBSTANTIVO FEMININO – A ARTE), terá a duração de um mês, no Centro Cultural Português de Bissau, poder-se-á ver quadros magnificamente bem conseguidos que retratam a vivência da mulher guineense em quatro sentidos: vida familiar e doméstica; identidade e pertencimento; atividade económica e produtiva; lazer e afetos. Estas quatro dimensões são demonstradas através dos quadros expostos no centro e ao mesmo tempo descritas com belíssimos textos de Cadija Mané e Rita Ié no catálogo da exposição.

Como os próprios autores das Exposições assumem, e como o próprio mês de março nos leva a assumir, são tributos a todas as mulheres guineenses que, diariamente, caminham, ora sentadas ora em pé, em busca da vida para os seus próprios corpos e espíritos e para toda a sociedade, pois são elas, em grande maioria, que garantem o sustento da família e globalmente da sociedade guineense.

Que venham mais exposições no feminino na Guiné-Bissau que nos leva a pensar e agir de modo a valorizar cada vez mais a importância da mulher na sociedade e a dizer não a atos que reprimem as suas vozes. As mulheres têm os seus valores, devem ser respeitadas e valorizadas

Parabenizamos ao RUI JORGE SEMEDO, por levar-nos a conhecer os instrumentos que as mulheres (nossas mães) utilizavam diariamente e ao YOUNG NUNO que, apesar de ser a sua primeira exposição, permitiu-nos ver e perceber, artisticamente, como as mulheres são batalhadoras e garantes de sustento e afetividade na Guiné-Bissau.

Obrigado aos dois e a todas as pessoas que contribuíram para que isso se concretize.

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto Muntu- Contrariar o Machismo

MUNTU_CM ♀️♂️: Um Poema Para Os Homens

Hoje (19.11.2021) é o DIA INTERNACIONAL DO HOMEM. Uma data que é anualmente celebrada desde 1999 e chama os homens para reflectirem sobre os seus lugares, papéis, comportamentos e as suas atitudes assumidas dentro de uma determinada sociedade. Por outro lado, também é uma data em que convoca não só os homens, mas todas as pessoas a valorizarem a importância que os homens desempenham socialmente em busca da afirmação dos valores e princípios que norteiam o respeito pela Dignidade da Pessoa Humana.

Todos os dias, e em especial o dia de hoje, os homens devem assumir-se enquanto transformadores da dominação que perpetuam ao longo de muitos séculos e ao mesmo tempo se libertarem das amarras tradicionais da masculininidade. Isso será possível quando os homens ousarem falar das suas emoções, assumirem fraquezas quando sentirem, não deixam que os princípios da virilidade tomem conta dos seus modos de vida e acima de tudo respeitarem as pessoas que fazem parte da vida deles.

Nesta data partilho convosco um poema sobre os homens e para os homens. Este poema foi escrito quando comecei a trabalhar no Projeto MUNTU – CONTRARIAR O MACHISMO, que é já uma realidade. Leiam, reflitam e mudem de atitude.

MUNTU: CONTRARIAR O MACHISMO


Muntu que é Muntu
Contraria o Machismo.
Dizer não ao machismo
Não se deve só às palavras
Dizer não às atitudes machistas
Resultam também nas ações.
Nas ações do dia a dia.

Yakala que é Yakala
Contraria o Machismo
Diz não às discriminações
Repudia todas as violências
Seja contra as mulheres
Ou contra os próprios homens
A luta deve ser diária e a toda hora.

Homem que é homem
Contraria o Machismo
Faz das suas lutas um processo
Onde todos são iguais e tudo é justo.
Pauta sempre pela igualdade de género
Sem nenhum constrangimento ou medo.
Os homens choraram, sentem, emocionam e amam.

Vamos todos dizer não ao machismo
E gritar bem alto contra os machistas
Sem vergonha e sem pudor.
Não importa o lugar onde estás
O importante é mudar de atitude
Em busca da igualdade de género, sempre…

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU – CONTRARIAR O MACHISMO

MUNTU_CM ♂️♀️: Machismo Africano (Parte1)

Como é habitual, após cada episódio do Espaço de Conversa DE MUNTU PARA MUNTU, escrevo um artigo com sobre o tema da conversa. Desta vez, vai acontecer o mesmo.

Quando decidimos embarcar em qualquer desafio, mais particularmente aquele que diz respeito à criação de um movimento social que contraria a dominação e exploração masculina interpaíses que busca, de alguma forma, tocar na ferida, neste caso específico, dos homens, não devemos escusar de levantar algumas questões importantíssimas que podem ajudar-nos, e ao nosso próprio movimento, a refletir sobre a problemática em causa.

Neste sentido, é preciso questionar: o que é o machismo? O que consideramos ser atitude ou comportamento machista? Será que os homens estão interessados em contrariar o machismo? São só os homens que são machistas? É justo dizer que um homem casado com três mulheres é machista? E se fosse uma mulher, como seria?

Estas e muitas outras questões são fundamentais para refletirmos melhor sobre a temática de Machismo Africano. E resultaram do 5° Episódio do Espaço de Conversa DE MUNTU PARA MUNTU.

Primeiramente, é preciso assumir de uma forma clara de que o privilégio que os homens têm acaba por si tornar, na maior parte das vezes, tóxico, resultado de um longo período de dominação e exploração exercidas sobre as mulheres, em toda a parte do mundo.

No contexto africanos, dos PALOP em particular, continuamos a ver uma enorme invisibilidade das mulheres desde cargos políticos e lugares de tomada de decisão até em casa, onde são limitadas, simplesmente, ao cuidar da família: cozinhar, tratar dos filhos e do marido, empreender por conta própria e sem nenhum tipo de apoio quer do Estado, quer do marido, e nos momentos de tomada de decisão familiar também são postas de lado.

É essa base complexa de relações familiares, sociais e institucionais, que põe de parte as mulheres que precisamos constantemente pôr em causa, através de incentivo à boas práticas de masculinidades, introduzir o conceito de muntuismo e ao mesmo tempo motivar cada vez mais as raparigas e mulheres a procurarem as suas próprias autonomias, tanto ao nível da educação, como também ao nível económico e financeiro.

Portanto, apesar de se estar a notar alguma evolução no sentido em que as raparigas e mulheres estão a procurar a todo custo dependerem delas mesmas, devemos continuar a apostar seriamente na Educação de Qualidade (ODS-4), provocando mais o senso crítico e tanto os homens como as mulheres que se tornem responsáveis na educação das crianças, para que possamos mais rapidamente atingir o ODS-5 (Igualdade de Género), nas instituições e também na distribuição das tarefas domésticas.

Temos todos que assumir a nossa quota parte da responsabilidade, se quisermos viver um futuro melhor ou sentir que as gerações vindouras terão possibilidades de serem justos e igualitário uns com os outros.

Obs: esta reflexão resultou da conversa sobre o Machismo Africano que teve a presença de Flávio Gonçalves, Rui Machango e Leufigénio Paquete, no 5°Episódio (1ªParte) do Espaço de conversa DE MUNTU PARA MUNTU.

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU_CM

MUNTU_CM ♀️♂️: Fim é o Princípio

Terminou ontem (10 de Julho) o Programa de Mentoria do HeForShe de Lisboa denominado Mentoring The Future, depois de 6 meses.

Antes de mais, HeForShe é um Movimento Global de Solidariedade pela Igualdade de Género, criado pela ONU-Mulheres em 2014. Este movimento existe em muitos países, incluindo em Portugal, com os seus vários núcleos espalhados em diferentes cidades e universidades do país.

O HeForShe de Lisboa, lançou o Programa de Mentoria, supracitado, em que desafiou 50 jovens de diferentes áreas de formação e localização geográfica (portuguesa) a criarem projetos de impacto social baseando nos valores da igualdade de género.

Os jovens responderam à altura, com projetos inseridos em diferentes temáticas, de direito à arte, de sociologia à educação e também iniciativas que procuram reflectir historicamente o assunto da igualdade de género. Todos interessantes e merecem atenção do público e ao mesmo tempo de apoios para a sua implementação. Pois, para atingir o ODS-5 é fundamental lutar em todas as frentes, tal como os projetos apresentados revelam.

O Projeto MUNTU – CONTRARIAR O MACHISMO é um dos projetos que nasceu através desse programa de mentoria. É uma iniciativa puramente sociológica que pretende inquietar os homens dos PALOP sobre as suas masculinidades, desde a forma como encaram a ideia de “Ser Homem”, no relacionamento com as mulheres e crianças em suas casas e também nos seus locais de trabalho. Este projeto centrar-se-á em três áreas principais: igualdade de género, masculinidades positivas e o muntuismo.

De todos os projetos apresentados, o Projeto MUNTU foi um dos 5 selecionados pelos júris e que terá a possibilidade de receber apoios diretos de algumas organizações parceiras do HeForShe de Lisboa neste programa de mentoria. E esses apoios abarcam:

– Divulgação dos projetos, pela LEWIS Communications, Moche/Altice e Associação ACEGIS;
– Design Gráfico, pela LEWIS Communications;
– Apoio nas candidaturas a fundos, pela Associação ACEGIS;
– Apoio na apresentação de projetos a nível institucional (como por exemplo, Câmaras
Municipais e Juntas de Freguesia), pela Associação ACEGIS;
– Apoio e consultoria jurídica, pela Linklaters;
– Disponibilização de espaços para eventos presenciais (por exemplo, exposições), pela
Moche/Altice;
– Gravação de vídeos, pela Moche/Altice;
– Acompanhamento e ajuda na divulgação de projetos e atividades promovidas pelos projetos,
pela HeForShe Lisboa e núcleos universitários.

O Projeto MUNTU já em si nutre de uma grande responsabilidade, por ser único e por estar a tratar de temática pouco abordada na comunidade PALOP, quer em Portugal, quer nos próprios países. A responsabilidade aumentou de nível por estar nesta lista de 5 projetos. Por isso, este fim do programa acaba por ser um grande princípio, pois o projeto vai ganhar a sua autonomia e cumprir com o seu primeiro momento de implementação, que terá a duração de 6 meses, cujas atividades serão voltadas para o público jovens até aos 25 anos, indicados pelas associações de imigrantes ou de núcleos de estudantes africanos. Estes jovens terão oportunidade participar em formações, palestras, debates, workshops e rodas de conversa, com base nas três áreas do Projeto: igualdade de género, masculinidades positivas e muntuismo.

Depois desse primeiro momento, juntamente com esses jovens, criar-se-á uma estrutura que transformará o projeto em uma ONG-MUNTU e ao mesmo tempo levar essa organização para todas as capitais dos Países Africanos da Língua Oficial Portuguesa.

O Projeto MUNTU – CONTRARIAR O MACHISMO é promissor e tem muito caminho para andar. Mas sozinho não sobreviverá, por isso, se tiverem alguma sugestão, opinião ou dicas, por favor, comentem aqui no blogue ou entrem em contacto comigo através das redes sociais.

Para finalizar, o Muntu agradece a todas as pessoas que, de forma direta ou indiretamente, fizeram com que este Projeto chegue a este nível que chegou.

Agradecimento especial à mentora do Projeto, Ana Paula Costa, que sempre esteve atenta e a dar dicas importantíssimas que tornaram a idealização deste projeto ainda mais concreta e possível. Ao HeForShe de Lisboa pela abertura que deu aos jovens para mostrarem o que conseguem fazer caso lhes dessem oportunidades. A todas as pessoas que ajudaram na divulgação e convidaram o Idealizador do Projeto a falar do mesmo, aos que inspiram e que participaram no Espaço de Conversa – De Muntu Para Muntu, um enorme obrigado.

O Programa de Mentoria chegou ao fim, mas é mais um princípio para o Projeto demonstrar que tem asas para voar e a ajudar a alcançar a ODS-5.

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU – CONTRARIAR O MACHISMO.

MUNTU_CM ♀️♂️: Desmistificando o feminismo: Atualidade, importância e diversidade

O debate sobre o feminismo está muito presente, e ainda bem que está. Sob diferentes perspetivas discute-se a importância de estarmos em alerta constante para (re)compor o mundo, do qual, sabemos que com lutas, como a luta feminista, assumidas seriamente, seremos capazes de atingir o desejável, que é respeito, em absoluto, pela dignidade da pessoa humana, igualdade de género, justiça social e ao mesmo tempo pela verdadeira libertação das mulheres, de forma a poderem ser aquilo que quiserem.

Este conceito que, ao mesmo tempo, dá nome ao movimento social, merece uma profunda desmistificação, ou seja, deixar clara a ideia central que aceitamos incorporar. De acordo com Salami (2017):

a palavra “feminismo” é certamente uma importação (como todas as palavras em inglês), o conceito de oposição patriarcal, isto é, a raison d’être do feminismo, não é algo novo ou estranho (…);

(Salami, 2017. In Ondjango Feminista)

Por outro lado, o feminismo não só não é uma luta que procura dar autoridade e poder às mulheres a todo custo, de forma a poderem ser dominadoras de tudo, como também não é uma luta exclusivamente feminina e ocidental. Portanto, a luta feminista é transversal aos continentes, às realidades e pessoas. Por isso, “devemos todos ser feministas“, em qualquer lugar e a qualquer hora, e assim vincar os princípios e valores da igualdade e justiça para que possamos (con)viver livremente e sem julgamentos, onde todas as pessoas poderão sentir-se livre em fazer aquilo que quiserem.

Na atualidade essa luta está polarizada a vários níveis. Ou seja, tanto se fala do feminismo como um movimento social que nasceu a partir do berço das mulheres, como também um movimento de luta pela libertação das pessoas oprimidas ao longo da história, incluindo as mulheres e homens, e todas as pessoas independentemente do género. No entanto, revela uma extrema importância para alcançar a igualdade de género, desde a divisão das tarefas domésticas como na ocupação dos lugares de poder na sociedade, que tantas mulheres e tantos homens lutaram para atingir, e que, infelizmente, continua aquém do desejável.

O conceito do feminismo dá-nos uma visão fixa de que necessitamos bastante de viver numa sociedade justa e igualitária. Dentro desta visão global, encontramos vários tipos de feminismos que nos incita a não olhar só com uma lupa ao fenómeno, mas sim ter em conta as suas variadas vertentes, também elas importantes, entre as quais: o feminismo negro, o feminismo interseccional, ecofeminismo, transfeminismo, feminismo radical e feminismo africano.

Todas estas subcategorias do feminismo são fundamentais porque possibilitam-nos alargar a lupa e ver todas as camadas da nossa sociedade. Contudo, apesar de o Projeto Muntu se simpatizar com todas, há duas que são intrinsicamente ao projeto. Feminismo Interseccional e o Feminismo Africano.

Começamos pelo último, o feminismo africano. Ainda na senda de Salami (2017), que afirma o seguinte:

África tem algumas das civilizações mais antigas do mundo, por isso, embora nem sempre o chamassem de feminismo (o substantivo) até onde podemos rastrear sabemos que haviam mulheres que eram feministas (o adjectivo) e que encontraram maneiras de se opor ao patriarcado. Portanto, o feminismo é uma parte importante da história das mulheres africanas.

(Salami, 2017. In Ondjango Feminista)

Deste modo, podemos considerar três fases importantes do feminismo africanos. A primeira fase, teve o seu início no princípio do Séc XX, com nomes como Adelaide Casely-Heyford, ativista pelos direitos das mulheres na Serra Leoa, vista como “feminista vitoriana africana”; Charlotte Maxeke, que fundou em 1918 a Liga das Mulheres Bantu, na África do Sul; e também a fundadora da União Feminista Egípcia (1923), Huda Sharaawi. A segunda fase, que coincidiu com o período do colonialismo e das lutas de libertação, contamos com mulheres como

a rebelde Mau-Mau Wambui Otieno, as lutadoras da liberdade Lilian Ngoyi, Albertina Sisulu, Margaret Ekpo e Funmilayo Anikulapo-Kuti entre muitas outras que lutaram não só contra o colonialismo, mas também o patriarcado.

(Salami, 2017. In Ondjango Feminista)

O feminismo africano acabou por se solidificar com a terceira fase, durante a década 1975-1985 que provocou não só a ativismo feminista no continente como também na diáspora. Aqui temos mulheres feministas de vários campos, desde académicas, artistas, ativistas, políticas, entre as quais podemos citar Leymah Gbowee, Joyce Banda, Simphiwe Dana e Chimamanda Ngozi Adichie, e ao mesmo tempo organizações africanas feministas como a African Feminist Forum e African Gender Institute, que “estão na vanguarda do uso do activismo, do conhecimento e da criatividade para mudarem as situações que afectam negativamente as mulheres.” (Salami, 2017. In Indjango Feminista).

Já o feminismo interseccional, oferece-nos outra abordagem que nos leva a reconhecer que nem todas as pessoas possuem as mesmas condições, e que existem múltiplas facetas e camadas de vida com as quais têm de lidar, como o racismo, machismo, sexismo e outras.

Como afirma Ava Vidal (2014):

A visão de que as mulheres experimentam a opressão em configurações variadas e em diferentes graus de intensidade. Padrões culturais de opressão não só estão interligados, mas também estão unidos e influenciados pelos sistemas interseccionais da sociedade. Exemplos disso incluem: raça, gênero, classe, capacidades físicas/mentais e etnia.

(Vidal, 2014. In Blogueiras Feministas)

Tendo em que projeto está voltado para comunidade de imigrantes dos Países Africanos da Língua Oficial Portuguesa, em Portugal, mais precisamente para homens, há, no entanto uma necessidade tremenda de ter em atenção essas camadas que provocam discriminação às mulheres dentro das suas próprias comunidades e também aos homens. Por outro lado, há também uma necessidade de dar a conhecer o feminismo africano, de modo a desmistificar aquilo que pensamos ser universal para todas as as realidades e contextos.

Todavia, precisamos alargar as nossas formas de encarar os fenómenos sociais. Neste caso específico, é preciso não ver o feminismo como sendo simplesmente um fenómeno ocidental e de luta pela libertação das mulheres brancas, mas sim, uma luta universal, sem fronteiras e que diz respeito a todas as pessoas

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU – CONTRARIAR O MACHISMO

  • Referências bibliográficas:
  • SALAMI, M., (2017), Uma breve história do feminismo africano, Ondjango Feminista, Angola. Disponível em https://www.ondjangofeminista.com/.
  • VIDAL, A., (2014), ‘Feminismo Intersecional’. Que diabos é isso? (E porque você deveria se preocupar), Blogueiras Feministas, Portugal. Disponível em https://blogueirasfeministas.com/

MUNTU_CM ♀️♂️: Celebrar a África (Dois em Um)

Em muitas ocasiões são nos ensinados só a celebrar as conquistas. E tudo o que é oposto às conquistas é para se lamentar e/ou não demonstrar o desagrado. Nos homens é mais comum, pois, crescemos encapotados de durões.

No meu caso particular, essa “capa” ganhou mais ênfase quando me distanciei dos meus pais. Passei a demonstrar mais o lado do sonhador que conquista, o que não quer dizer que não fico triste ou sinto desgosto sobre imensas coisas. Mas agora já ando mais despreocupado com essa “capa”. Tal como afirma Zia Soares (atriz, encenadora e diretora artística do Teatro Griot), numa entrevista à Buala: “Na celebração e na festa há dor, raiva, tristeza. Mas tudo isso é celebrado, esta componente de celebração é que ativa depois outras possibilidades, a morte é a via para outras possibilidades. É um outro olhar para o mundo”, o que significa que, não devemos limitar-nos só a celebrar e/ou a festejar a vida e o seu lado bom. Há beleza na morte, na tristeza, na dor, no erro… que merecem celebrações tanto quanto o lado bom da vida.

Com tudo isto, e como sabem, esta coluna de #MUNTU_CM ♀️♂️ serve e servirá só para escrever sobre as temáticas ligadas ao projeto e do crescimento do mesmo. Por isso, partilho contigo duas novidades (boas) que me deixaram muito orgulhoso enquanto Idealizador do Projeto MUNTU – CONTRARIAR O MACHISMO e, creio eu, a Mentora do Projeto também estará a sentir o mesmo.

A primeira novidade é algo que já sonhava, mas achava que demoraria imenso tempo para acontecer. Mas com a criação deste projeto, esse desejo efetivou-se numa altura em que não imaginava. O nome do Projeto “MUNTU” e todo o significado e os princípios que este conceito transmite, está a ganhar uma dimensão dentro de mim que é inexplicável. E com isso, quando falei do projeto ao meu professor, ele desafiou-me a escrever sobre a África para a ocasião da celebração do DIA DA ÁFRICA (25 de Maio).

Sabia da importância do desafio e até onde poderia chegar, pois, o meu professor é colunista da Revista Visão. Encarei esta oportunidade para lançar o projeto através de um outro canal que é muito conhecido a nível nacional e internacional. Esse desafio acabou por resultar num artigo assinado pelo meu professor mas que partiu da minha análise sobre África, o conceito Muntu e também sobre a importância da liderança feminina. O artigo já está disponível na Revista Visão com o título “O Muñtu Africano: O direito à dignidade da pessoa humana”.

A segunda novidade tem a ver com o que andei a pensar desde que comecei a trabalhar neste projeto. O que me levou a escrever um poema que, infelizmente, não foi possível ser gravado em forma do hino. Isto para te dizer que, o Projeto MUNTU – CONTRARIAR O MACHISMO já tem HINO.

A canção que agora passa a ser o hino do projeto MUNTU, é da autoria de Nkanga Jack Tanzi, com o nome artístico A’mosi Just a Label. Angolano, nascido no Uíge, uma das 18 províncias de Angola localizada na região norte. Nkanga Jack Tanzi é cantor, ator, poeta e produtor musical, identifica-se no mundo artístico com A’mosi Just a Label como “uma forma existencial de um ser que se auto desqualifica ser visto como um nome, postura assumida por este indivíduo que diante da regência humana é artista de Angola” (in Ao Sul do Mundo).

Jack (tratado com esse nome pelos conhecidos), é autor de um estilo musical muito próprio e diferenciador, se auto-intitula como um “ordinário e herdeiro da natureza como toda gente. Aproveita-se da herança artística universal que encontrou para se expressar sob a idéia de unidade evidenciando a raça humana que somos.” Ainda procura ajudar-se a si próprio e aos outros a compreenderem e respeitarem naturalmente a vida, desfrutando da liberdade natural. Põe-se a “celebrar a vida e viver a felicidade eterna partindo pela reflexão e acções intuitivamente positivas sobre a vida dentro da boa ordem ancestral” (in Wikipedia).

A’mosi Just a Label, já anda no mundo artístico, e no da música em particular, desde 2006, ano em que foi “finalista do Festival da Canção de Luanda (…) com a música da sua própria autoria intitulada Minha Terra” (in Wikipedia).

Agora, presenteia-nos com uma música nova cujo título é MUNTU, tal e qual o nome do Projeto. A letra desta canção é cantada inteiramente na língua kikongo, uma língua bantu falada no norte de Angola precisamente na zona onde nasceu Jack Tanzi, em 1980.

A letra da música, que o autor fez questão de partilhar comigo, transmite uma mensagem muito simples, mas a ilusão do ser humano na busca constantemente de se colocar superior ao outro, acaba por complexificá-la tornando a vida e a relação humana cada vez mais estranha no que toca ao respeito pelo outro.

Ora, segue a letra da música “Muntu” Traduzida:

Lugar sagrado
Um corpo ou outro tudo igual
receptor filtro e reprodutor
Encanto!
Vida
Indivíduo sem crenças e feliz
Importante e sem estatuto
Vivo num sistema colectivo

Este é o ser humano dos meus ideais (4x)

Sábio
Sempre aprendiz ao ser-se
Indivíduo de fácil diversão
Espiritual!
Zeloso
Obediente aos sinais da natureza
Pessoa de tolerância e perdão
Optimista e sem poder sobre o próximo

Este é o ser humano dos meus ideais (4x).

Desde que me lembro de celebrar o dia da África, este ano superou todos os anos anterior, não só pelo projeto, mas pelo que estou a descobrir e a ganhar a conta dessa entrega.

Celebra o Dia da África da mesma forma que eu, a ler constantemente o artigo Muñtu Africano publicado na Revista Visão e ao mesmo tempo a ouvir a música Muntu, da autoria de A’mosi Just a Label, que é agora o hino do Projeto MUNTU- CONTRARIAR O MACHISMO.

Mamadu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU_CM ♀️♂️.

MUNTU_CM ♀️♂️: Masculinidades Positivas e Violência Contra Homens

O artigo que hoje escrevo é o resultado do 4°Episódio do Espaço de Conversa DE MUNTU PARA MUNTU, do Projeto MUNTU – CONTRARIAR O MACHISMO, cujo tema, de extrema importância, convoca todas as pessoas para uma reflexão profunda, sobre a forma como se debatem estas temáticas e também a maneira como são reproduzidas quotidianamente.

Como se pode ver no título “Masculinidades Positivas e Violência Contra Homens“, este artigo abordará duas questões principais. A primeira, sobre o que são masculinidades, como é que se podem promover masculinidades positivas e combater masculinidades tóxicas; a segunda questão procurará debruçar-se sobre os abusos e violências e desconstruir alguns mitos reproduzidos sobre as violências contra homens.

A primeira observação que se deve deixar clara quando nos debruçamos sobre a masculinidade e/ou as masculinidades, é determinar através de exemplos práticos do dia a dia ou recorrer por exemplo aos estudos feministas. Portanto, é preciso deixar assente que, quando falamos de Masculinidade no singular, estamos, automaticamente, a excluir uma boa parte dos homens. Pois, a Masculinidade, como exclarece o historiador e sociólogo moçambicano Carlos Serra, “é o conjunto de atributos pelos quais o homem acredita ser unidirecionalmente macho, forte e corajoso” (2017:7).

No entanto, pode-se notar que esta forma padronizada de ser homem não é comum a todos homens, daí a necessidade de falar da Masculininidade no plural, ou seja, de Masculinidades, porque “há uma diversidade social, política e cultural na forma de viver o masculino” [(Connel, 2005 citado por Pereira, 2021:2 (PlataformaGeni: Masculinidade Tóxica? Vamos falar sobre isso!)].

Essas Masculinidades possibilitam-nos ver as diferentes formas de se ser homem em diferentes contextos e realidades, que não aquela fechada na caixa de masculinidade dominante que assume que ser homem é aquele que é forte, viril, que não chora e nem se lamenta perante as adversidades etc…

Contudo, é preciso, cada vez mais, demonstrar a pluralidade de se ser homem e ao mesmo tempo promover as masculinidades positivas que põem em causa as masculinidades tóxicas. No que diz respeito à promoção das Masculinidades Positivas, como afirma Ângelo Fernandes (convidado do 4°Episódio do Espaço de Conversa DE MUNTU PARA MUNTU), que é líder da Associação Quebrar o Silêncio, “temos que associar, cada vez mais, a área do cuidado, por si próprio e pelo outro, aos homens, aos meninos desde muito cedo. E um dos aspetos significa que o homem deve ter a consciência do autocuidado, de ter o cuidado consigo próprio” (in 4°Ep. DE MUNTU PARA MUNTU). Portanto, a consciência do autocuidado e da construção de afetos deve ser reforçada com a educação das crianças nas escolas, no seu meio familiar e socialmente dotar as instituições de mecanismos que criam abertura por parte dos homens de modo a que possam libertar os seus sentimentos e emoções, partilhar as angústias e ao mesmo tempo desconstruir a caixa da masculininidade hegemónica. Com base nestas dimensões, poder-se-á combater, de alguma forma, a masculinidade tóxica.

Todavia, quanto mais se espalhar, nutrir e agir com base nos princípios das Masculinidades Positivas, menos violências existirão nas nossas sociedades, sejam elas violências contra homens ou contra as mulheres.

Ao falar de violências, estamos a referir-nos a todas as formas maldosas e/ou subtis de se agir sobre o outro sem a sua vontade, tanto pode ser em termos físicos, psicológicos ou simbólicos. No que toca à violência contra homens, que muitas das vezes é tratada como um não assunto, ou seja, desvaloriza-se a sua existência por razões da forte presença da masculininidade hegemónica, que determina, de alguma forma, a nulidade do sofrimento por parte dos homens. O que é extremamente perigoso e falacioso, porque os homens também choram e sofrem.

Os homens sofrem e muito sob diversas formas, inclusive através de violência sexual. E os dados apontam que um em cada seis homens sofre ou sofreu de algum tipo de violência sexual, e o tempo médio para ultrapassar esse trauma é de 26 anos.

No entender de Ângelo Fernandes, não existe um conhecimento coletivo ou um património sobre o que é violência sexual, que seja coerente e aceite socialmente por todas as pessoas. Há sempre pontos em comum e diferenças na forma como cada pessoa define ou caracteriza o que é violência sexual. Alguns determinam que só quando existe toque físico outros não.

De acordo com Ângelo, a existência de violência sexual não se resume só a atos penetrativos, e existem outras formas de violação que também são violação sexual, que podem ser experiências traumáticas para quem é vítima e consequentemente causar danos profundos na vida da pessoa que sofre ou sofreu de algum tipo de violência sexual. E reforça que é preciso alargar a violação e o ato penetrativo, e trazer o carácter traumático que está cada vez mais associado a violência sexual. Como por exemplo, pode existir violência sexual e causar traumas a uma criança quando esta estiver a assistir (obrigada ou não) à masturbação por parte de uma pessoa mais velha.

Portanto, há que desconstruir alguns mitos em volta do que é considerada violência sexual e sobre as suas variadas formas exercidas nos homens. Para isso, selecionei um, de muitos mitos sobre abuso sexual que estão disponíveis no site da Associação Quebrar o Silêncio.

O mito escolhido é: “Se a vítima não tentar parar fisicamente o ato, não podemos considerar que se tratou de violência sexual“. De acordo com a explicação partilhada no site da Associação, a “violência sexual contra homens e rapazes é crime e a responsabilidade é do abusador. O facto de a vítima não conseguir impedir ou de não tentar impedir fisicamente o abuso não o torna num ato consentido. Existe todo um espetro de reações que podem ocorrer e não há respostas que possam ser considerados corretas ou incorretas (…).” (in Quebrar o Silêncio).

O desafio com o qual fecho este artigo é uma parte da mensagem dada por Ângelo Fernandes na conversa que tivemos sobre Masculinidades Positivas e Violência Contra Homens, no Espaço de conversa DE MUNTU PARA MUNTU, e afirma o seguinte: “(…) às vezes, devíamos escutar mais, em vez de logo contra-interrogar as vítimas – porquê que não falou antes? Porque que não diz o nome do abusador? Porquê que só agora? Porquê que demorou tanto tempo?- tem muitas perguntas e estas perguntas tendem a responsabilizar e a atacar a vítima, tendem até a revitimizar e retraumatizá-las.

Com isso, tenhamos ousadia de cultivar o exercício de escuta e não apontar o dedo ou pressionar a vítima só para que possamos satisfazer a nossa curiosidade.

Mamdu Alimo Djaló: Cozinheiro, Sociólogo e Poeta. Idealizador do Projeto MUNTU – CONTRARIAR O MACHISMO