PESSOAS-CONVIDADAS👥: História em Quadrinhos


Estes quadrinhos refletem mesmo bem o que se passa de maneira bem lúcida.

Minha pergunta é: como isto está acontecendo? Esquecimento? Falta de imaginação e criatividade? Desconexão? Falta de verdadeiros representantes e sonhadores? Direção?

O fundamento foi-nos dado. Passado. Pelas vozes e vultos da nossa ancestralidade. Mas os deuses morreram em prol de um Deus que não era o nosso. Nos vendemos e perdemos. E nos tornamos o vulto desse Deus. De sua imagem a sua mortalidade. Assumimos um lugar que não é o nosso. Fugimos da nossa natureza porque nos lembra disso. Nos espelha a maravilha que perdemos do horizonte, e a queremos destruída como nós. Doente como nós. COVID foi uma realidade construída, por essa visão deste comum lugar onde perdemos a capacidade de genuinamente nos aceitarmos e nos vermos como o pó que somos, ao vento, como o todo resto. Deus, todo poderoso pede a mão da criança que um dia fomos. Mas onde ela está?

Em África na mão de Aka? No musseque, no gueto, na favela, a lançar pipa com a cara da Cruela…? Sem saber que essa foi antes a diversão de nossos reis.

E rainhas?
Todas crianças sem noção de nossas mães. Sob adoção de falsas leis.

Eis…

Ndala Loroke Akabiru
Aka Biru é poeta, rapper, educador e beatmaker radicado em Lisboa. Trabalhando principalmente com música baseada em múltiplas influências, desde a electrónica aos sons tradicionais das suas origens em Angola e na Guiné-Bissau. Difícil de classificar como artista, e sempre disposto a explorar novos meios, incorporou recentemente o cinema como meio de expressão.

Aka Biru tem uma longa experiência com projetos educacionais, tendo realizado workshops para públicos muito heterogêneos, de crianças a jovens adultos. Participou no TEDx Mindelo & TEDx Luanda.

Atualmente é Embaixador do Slam de Poesia da Guiné-Bissau, para a CASP (Cup of African Poetry Slam).

Como Diretor de Cinematografia seu curta-metragem de estreia PULSO foi selecionado para estar em um dos mais prestigiados festivais de cinema negro do Brasil, o Zózimo Bulbul 15ª edição (2022).

“um desenho na areia úmida do tempo se espalhando pela rachadura de uma ampulheta que perdeu sua verticalidade”

Através da música encontrou a poesia do cinema, tendo a vida e uma perspectiva dela como roteiro.

PESSOAS-CONVIDADAS👥: A Minha Doce Memória

– Bom dia, já é hora de acordar! _Pouco se passava das 06.00 da manhã, quando aquela voz já bem conhecida, no seu tom ameaçador e agudo me despertou, a mim e a minha irmã mais velha que dormia ao meu lado, já nem me lembrava de que era sábado e que não tínhamos de ir a escola, mas a rotina era a mesma, tínhamos que levantar cedo da cama, ainda antes dos raios do sol aquecerem a aurora matinal, logo depois da primeira cantada do galo, as vezes para irmos comprar pão, ou para ir ao rio apanhar água para o uso da família, ou simplesmente para manter o costume e habito de “acordar com as galinhas”. Nem hesitei e nem podia, espreguicei me, dei bom dia a minha mana, renunciei ao sono que insistia em querer me manter deitada, abri a janela, que revelou um lindo dia de sol, invadindo o quarto com a sua luz revelando a simplicidade daquele cómodo.

– A mãe está a chamar. _ Disse minha mana esfregando os olhos ainda sonolentos.

– Eu sei, já ouvi. _ Respondi enquanto calçava os chinelos. Saímos as duas do pequeno cómodo, uma atrás da outra preparadas para enfrentar e desfrutar deste sábado. Lá fora no quintal, ainda se podia sentir o frio matinal, as galinhas todas a volta da minha mãe enquanto ela espalhava o farelo, olhando com orgulho para a sua criação, o meu pai também ali se encontrava ao pé das bananeiras em tronco nu, toalha enrolada a volta de cintura, olhou para nós enquanto escovava os dentes, com uma mão segurava a escova e noutra tinha um copo com água. Demos-lhes os bons dias e aguardamos as instruções da nossa mãe.

-Maria vai varrer o quintal e arrumar a casa. _Disse ela a minha irmã ao mesmo tempo que pegava da pequena e velha mesa da cozinha uma lista, que me entregou de seguida. –Você vai comprar pão e passa na mercearia da senhora Susana e compra estas coisas. _Das suas mãos recebi uma lista que já me revelava o que seria o almoço de hoje, a minha barriga estava vazia, e o meu estômago já reclamava, pois, era um dos meus pratos favoritos, só depois vim a perceber que já havia uma fogueira acesa na cozinha, onde ela já tinha uma diversidade de peixes a “fumar”. O cheiro que de lá vinha deixava-me ainda mais esfomeda.
Li com cautela todas as palavras para ter a certeza de que não me enganava em nada, pois, conhecia cada ingrediente daquele prato:

Рfeij̣o vermelho
– Peixe fumado
– folha micócó
– coentro
– óleo de palma
– sal
– couve
Рliṃo
– malagueta
– tomate
– cebola

Depois de fazer a minha higiene, fui a correr fazer as tarefas que me tinham sido incumbidas, enquanto a minha mana fazia as dela.

Pouco passava das 12horas, e a minha mãe já tinha o almoço quase pronto, o aroma que exalava daquele cozinha, provocava a minha fome, já estava a sonhar com a hora dela chamar para almoçarmos. O meu pai tinha acabado de chegar quando eu retirava o último pau de lenha debaixo do tacho para acalmar a fogueira, o arroz já estava pronto e a feijoada também, a minha irmã ficou encarregada de colocar a mesa, pois a regra cá em casa era “todos juntos a hora das refeições”.

– Todos para a mesa, o almoço já está pronto. _ Gritou ela, pousando sobre a mesa aquela tigela cheia e completa daquela “feijoada a moda da terra”, feita com muito carinho. Mesa pronta para quatro, uma família muito humilde e feliz, comida deliciosa, e muito carinho no ar, assim era mais um almoço em família, lá fora o sol e o calor se fazia sentir acompanhado de uma pequena brisa que as vezes soprava, deliciamo-nos com aquele prato maravilho e agradecemos a Deus pelo alimento do dia e enchemos a nossa mãe de elogios pois a comida estava deliciosa.

Voltando a realidade, estas são umas das melhores lembranças que trago comigo, lembranças do tempo em que era feliz e não sabia, recordações da minha infância, saudades guardadas dentro de mim, saudades daqueles que jamais voltarei a ver, e saudades do tempo que não voltará atrás, mas de uma coisa tenho a certeza, voltarei a comer “a feijoada à moda da terra” da minha mãe.

Bety Lima Dias, Sãotomense a residir em Portugal, que completará no próximo mês 39anos (12 de Novembro). Formada em Secretaria pela CEAC, uma escola de formação à distância. Apaixonada pela cozinha, mas atualmente trabalha como operadora de caixa numa das bombas da BP. Assume com este artigo como sendo a sua primeira experiência de escrita a ser partilha neste tipo de espaço.

PESSOAS-CONVIDADAS👥: A Razão do Meu Encanto

A razão do meu Encanto
Mulher negra e formosa de
olhos verdes e atraente
coração vermelho e grandiosa
alma amarela e fascinante

esta é a guiné que eu canto.

A 36.125 km² espalha o feitiço no
toutiço da África misteriosa onde o
sol se repousa confiante banha
sorridente no oceano gigante

esta é a pátria que eu adoro.

No século quinze desvirginada viveu um
casamento à portuguesa lutadores,
Amílcar e seus camaradas em 73
volveram-lhe mulher emancipada

esta é a terra que eu exalto.

Os guiguis orgulhosos multiplicam-se
em milhões de sorrisos para Áfricas
alegrar e ao mundo exaltar a riqueza
da alma que em nós habita maravilhosa

esta é a razão do meu encanto.

UNKAFF é o pseudónimo de Onésio Caetano Soda, nascido em Bissau, Guiné-Bissau,
no dia 08 de Abril de 1991, militar, cineasta, escritor, ativista civico e sociólogo.
Co-fundador e membro da Associação Kabaz Kultural, membro da Comissão da
Recolha de Dados Históricos da Luta de Libertação Nacional do Estado-Maior General das Forças Armadas e mentor do projeto Nô Ambiente, Nô mamê.Autor dos filmes de curta-metragem: Vozes de Mar em 2019 e Lágrimas de SIDA em 2020, do ensaio A Luta na Guiné:da luta pacífica à luta armada em 2020; Vidas em letras: contos de tempo nenhum em lado nenhures (livro de conto) em 2021; do artigo O papel do Museu Militar da Luta Libertação Nacional na formação da Consciência Histórica Guineense em 2021 e do ensaio A pequena Guiné e a sua grande história em 2022.

PESSOAS-CONVIDADAS👥: O Nome da Minha Saudade

Nunca se sabe se é a véspera ou o dia.
Só se sabe que é quando acontece
E alma estremece.
Fotos ganham vida,
Pois nenhuma mais será esquecida.

A voz apaga-se mas a imagem ainda é nítida…

Mas, o riso continua real.
Não tão real como o abraço de ano novo
Nem as cores da aurora boreal.
O mundo gira, gira e quando pára
Não o reconheço como era,
Mas o resto continuou igual!
O igual do normal,
Não deixando de ser surreal.

A voz apaga-se e a imagem já não é tão nítida…

É difícil acostumar-se a ser andorinha sem asas,
Um Inverno em brasas.
É difícil saber que já não existe
E nada poder fazer.
Rezar fingindo crer.

A voz apagou-se, aonde está a imagem?

Quem me dera! Voltar a ver,
Sentir e ouvir o nome da minha saudade.

Claudete da Cruz Rocha, 20 anos.
Nascida e criada em Cabo Verde, com residência atual em Portugal.
Licenciada em Economia pela Universidade da Beira Interior. Uma simples amante dos números e letras.

ESPECIAL-PESSOAS CONVIDADAS👥: A Hipocrisia Funesta

A grande questão dos cúmulos da vaidosia é requerente: Finalmente para que serviu tantas e tantas, por finalmente terminar num esquife a caminho da eternidade, sendo detestado pelo seu próprio povo?
A outra questão seria, a ambivalência entre o que se Leva e o que se Deixa/Legado. Sabemos que o mero (a consideração pela pessoa) que se Deixa, nesse caso, refiro ao legado Humano e ação Política na suposta construção da sua sociedade/país (o que os incumbe) desfaz-se com o tempo, o que ajuda a deslizar para nulidade e esquecimento eterno.

Nesse caso, tanto a acção Humana como a Política, serão fracassos que retrogradam aquilo que em nome da lei, era suposto zelar e defender. Ao que se Leva, se ainda algo se leva, pois levamos sem consentimento nenhum, é pura e simplesmente o corpo e a alma.

Há quem dúvida das almas. Para essa categoria ideológica, só o corpo à eternidade vai. Para os crentes, ainda ansiosos à espera dum mundo ou paraíso novo ficarão à espera.

Ao meu ver, não acredito que pessoas desse brilho, merecem o paraíso. Se é que existe. Também me questiono. A consequência que se Deixa, torna puramente um calvário ao povo que outrora berrou estimas à essas personagens.

Toda a sociedade se refunda, se reconstrói, pagando com sangue e suor, as loucuras dos ditos potentes, sem qualquer sobressalto de paz ou felicidade. Isso não se ganha rezando à Deus.
O que se deveria Deixar (legado) à sociedade em questão, para um político culto e honesto, é talvez a loucura de ser gabado do bem feito, da exemplaridade, da honestidade, do pragmatismo, da transparência… que assim sirva à sua terra, ao seu continente, ao mundo além…

O Mobutu morreu tristemente… O Bokassa morreu tristemente… O Ben Ali/Tunísia morreu tristemente… O Kadhafi morreu tristemente… O Robert Mugabe morreu tristemente… O Nino Vieira morreu tristemente… A lista é longa.

Concluindo: Para que serve tanto, se finalmente o tanto fica? O José Eduardo dos Santos entra no campo da eternidade legando ao povo só conquistas ferrenhos e desejo-os (angolanos), boa sorte.
Diz o proverbo: Cá se faz, cá se paga. Deveriamos mesmo cá pagar, antes da incognita.

Nú Barreto, graduado pela École Nationale des Métiers de Image em 1996 em França, É conhecido pela versatilidade e multidisciplinaridade artística, exímio na mistura de cores e reciclagem de objetos em obra de arte. Barreto tem-se dedicado à pintura, desenho, fotografia e vídeo como forma de retratar a condição do ser humano no mundo contemporâneo desigual

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PESSOAS CONVIDADAS👥: … Esperar

Um simples verbo intransitivo baila as nossas vidas, espera.

Só hoje dei conta que somos feitos de espera.
Só hoje dei conta!
Isso doeu muito.
Todos esses anos a chorar pelos cantos, a lamentar e não cheguei a dar conta que somos feitos da espera.
Esperamos para nascer. Esperamos para ser alimentados. Esperamos para crescer e para viver.

Sempre fomos feitos da espera. Nessas andanças de esperar, já esperamos por muito. A espera de alguém ou a espera de algo.

Já esperamos para fazer perguntas e para obter respostas.
Esperamos pelos dias melhores. Esperamos por um céu claro com luar. Esperamos por nós e por outros.
Esperamos pela vida e pela morte.
Esperamos por tudo.

Nessas andanças de espera, perdemos o ar, molhamo-nos e a elegância perdemos.

Nesses caminhos da espera, ficamos com a ganância que nos faz querer esperar cada vez mais. Mesmo quando não se tem o que esperar mais.

Esperamos… Quando se percebe que temos apesar de tudo que esperar, desesperamos e tornamo-nos desesperados. Que hão de esperar que não se perca a esperança enquanto a esperança também espera para não desesperançar-se.

Nessa tentativa de espera, sentamos até não poder mais. Ficamos noites e dias à espera das mudanças que vão depender da espera para pisarem o solo que nos suporta.

Pelo caminho da espera desesperamos. Esperamos que uma dor torne amor. Esperamos por uma flor para aromar a nossa escuridão. Esperamos por um partir para um horizonte sem espera.

Na espera, desesperamos, às vezes. Dela sermos feitos, não temos o que ou como fazer senão esperar, para sempre… ESPERAR… Pelo o que tivermos que esperar…

Zaziwe’s pensamentos

Lizidoria Mendes
Dona da página no Facebook chamada Zaziwe’s Pensamentos. Participante de antologia de poetas da CPLP. Vencedora do concurso Blog4Dev2020 do Banco Mundial sobre Casamento infantil e casamento forçado na África Subsaariana. Eleita um dos 100 jovens mais influentes da CPLP 2020. Moderadora de GIRLS OUT LOUD. Embaixadora de Paz na Guiné-Bissau.

PESSOAS-CONVIDADAS👥: Moçambique

Um substantivo masculino emergente no contexto histórico árabe “Musa Al Bik, Mossa Al Bique ou Mussa Mbiki”. Moçambique, um substantivo idealizado exteriormente que sofreu alterações e adaptações conceituas em solos do seu próprio território.  Moçambique, um substantivo oficializado pela colonia portuguesa aquando as instalações das máquinas administrativas (direta e indireta) para exploração estratégica da escravatura e seu respetivo controle sistemático.

Moçambique, um substantivo para definição identitária do moçambicano. Moçambique, uma “nação” politicamente estabelecida e o português como a sua língua oficial, mas sociologicamente questionável se realmente é ou não de fato uma nação. Visto que o conceito de nação pressupõe ao “menos” a existência de uma língua apenas e que a partir disso os atores sociais integrantes tenham o sentimento de pertença sobre a sua nação uno através de formas de pensar e agir o que tecnicamente conceituamos por consciência coletiva.

Moçambique, um país geograficamente composto por três régios as quais: sul, centro e norte. Regiões que fazem a distinção dos moçambicanos dentro do seu país, tanto nas línguas locais quanto aos hábitos e costumes. Uma realidade social que tem impactos diretos nas organizações públicas e privadas do país no que diz ao desempenho dos seus papeis sociais tanto na provisão dos serviços aos atores socias visando as possibilidades do desenvolvimento. Uma realidade social que impulsiona a aplicação da Sociologia das Identidades e Transformações Socias para compreender a complexidade de Moçambique.

Moato Francisco Braimo Saíde
Nome de preferência: Moato Saíde.
Sociológo e pesquisador com linhas de pesquisa em Sociologia do Desenvolvimento e das Organizações. Natural de Moçambique- Nampula – Membro fundador da Associação para o Desenvolvimento Económico, Cultural e Cívica de Nampula – EKWEI

PESSOAS-CONVIDADAS👥: Espelhos Luminosos

Universo de sangue com infraestruturas sangrentas.
Universo iluminado com luzes de guerra
As estrelas escondidas no céu são violentas
Cobertas de orgada de um povo pecaminoso
Ominoso.

Pobreza cósmica mística.
Não tente desmistificar
Os encantos sonoros de um universo de rica pobreza.

Olha o que nos resta
Que geração fraudulenta
Desistiram de lutar
Olha como está

Por amor de Deus se alguém ler o nosso lamento
Faça a diferença e luta pela sobrevivência da próxima geração
Gratidão.

Osmar Wacela da Silva Sebastião, o Poeta de Papel, é de Angola/Luanda, Técnico de Eletrônica e Telecomunicações, estuda Língua Portuguesa e Comunicação na Universidade Metodista de Angola.

Escritor, poeta, slammer internacional (Portugal, Canadá, Colômbia), campeão em vários concursos de Spoken Word no Brasil, México e Guatemala. Participante de antologias no Brasil (Antologia Internacional, Antologia Poiesis, Antologia Absolutamente Informal), é membro da Confraria da Poesia Informal e do Sarau Atemporal. Prepara seu primeiro livro solo pela Bem Cultural Editora.
Instagram @Poeta.de.papel.

PESSOAS CONVIDADAS👥: Cosmos

Com uma linha indivisível eu e o céu,
cuja simbiose me transporta aos primórdios da criação
isto é, a época em que éramos unos.

Sendo um projeto de conceção
ou já no ventre da minha mãe,
aí é que pertencia a tudo!
Era uma semente do universo
sem saber onde seria plantada,
agora já não, tudo mudou.

Cresci e pertenço apenas a um lugar.

Entre nós,
Cosmos e eu,
apenas a distância que o sonho
separa e esqueceu.

Cresci e a tão amarga condição
que é existir rasgou as possibilidades infinitas que outrora tinha

(divagarei agora:
recordo-me de, em criança
traçar com o dedo as constelações no céu
ou com o lápis ligar os pontos naqueles cadernos.
Agora devo apenas traçar os caminhos que farão
o meu destino e nem para isso sei se sirvo).

Um dia a astrofísica vai dissolver-se
novamente em mim: hoje não,
ainda tenho alguns anos de vida.

Algarvia de gema e uma mulher de fé, cujo cupido apontou a seta para que fosse apaixonada pela literatura portuguesa, viagens e cenários bucólicos. Acredito na bondade das pessoas e que um planeta sem fome não é uma utopia. Com apenas 21 anos, tento evocar em tudo o que faço uma entrega total (sou do signo balança mas não acredito muito nos meios-termos). Prestes a terminar a licenciatura em Sociologia, olá sou a Raquel…

PESSOAS CONVIDADAS👥: A História da M’Pili

M’Pili, nascida e criada na periferia de Bissau, esta moça é pertencente a etnia pepel, etnia esta muito apegada a questões tradicionais, ou seja, são muito resistentes à sua ancestralidade. Não obstante a M’pili foi criada com base nesses costumes que não são muito favoráveis a direitos das mulheres, isto porque nos diagnósticos feitos a nível de Guiné-Bissau quase que todas as etnias que nela compreendem, possuem práticas discriminatória contra a mulher.

Consequentemente, a M’PILI foi negado seus direitos fundamentais entre os quais o acesso à educação formal que a torna muito mais vulnerável. Esta mulher Guineense, como várias outras com muitas barreiras, sem muita saída na sua vida e possibilidade de ascensão social, refugiou-se na bebida alcoólica, como forma de se entreter e esquecer o drama da Vida.

Neste ínterim a M’pili transformou-se numa viciada em álcool, ou seja, uma alcoólatra. Lamentavelmente, a M’pili passou sua juventude toda nesse processo e se tornou uma presa fácil para abusos sexuais, devido a sua doença de ponto de vista médico, de um lado e por outro lado, entendida como problemas de ordem espiritual como se fosse um infortúnio da sua família que a persegue, que tornou a situação da M’PILI mais complexa.

Posto isto, a mesma nunca teve tratamento adequado no que diz respeito a alcoolismo. A propósito estamos falando de um fenômeno social na Guiné-Bissau, mas que não existe centro de tratamento eficiente para tal, sem perder de vista que o estereótipo de gênero concorre nesta situação.

Não obstante países como Guiné-Bissau são altamente machista e sexista, consequentemente mulheres como à Mpili não são dadas a mão ou apoiadas. Entretanto, sofrem muita coerção numa sociedade que ensina que o modelo dominante de ser mulher é aquela que tem que se preservar, sobretudo porque a visão dos Bissau-Guineenses acerca desse assunto compreende a seguinte linha: “a mulher não pode beber como homem se a mesma o fazer é responsável pelos seus atos”.

Esta visão supracitada nos demostra que as violências com base no gênero que acorre com as mulheres no solo guineense são vistas de forma naturalizada, sobretudo mulheres alcoólatras ou dependentes químicos especialmente, já que a sociedade é ‘’conivente’’ com a violência que ocorre com as mesmas, sendo que se espera que uma mulher deve ser “santa”.

A Mpili sofreu com esse problema vida toda, ela teve 7 filhos, começava um relacionamento e terminava, afinal os homens não queriam algo sério, ou seja, compromisso com a mesma, visto que ela não se enquadra no perfil da mulher “santa” que a sociedade espera, sendo assim, cada filho da M’PILI tinha seu pai.

De novo este motivo serviu como repulsa, desprezo, a não virtude e dignidade com a sua figura, entretanto a mesma sofre diferentes tipologias de violências e discriminações em função da sua doença e na condição de ser mulher.

O corpo desta sempre foi apropriado pelos homens dos círculos dos bares do gueto, ora sofre pelo estrupo coletivo ora ficava grávida sempre que acontecia algo de género os criminosos não são responsabilizados, porque ela é vista como escárnio, inclusive a vizinhança enaltece: “bem feito a mulher não deve beber.”

A M’PILI acabou por pegar enfermidades, lutou muito com conjunto de doenças incluindo alcoolismo e lamentavelmente morreu.

O desprestígio social perseguiu vida da M’PILI até após a morte, na cerimônia fúnebre da mesma foi motivo de piada, as pessoas ali presentes estavam bebendo alegando que na cerimônia fúnebre de uma alcoólatra deve se consumir bebidas alcoólicas, assim foi o destino da M’PILY.

(Não consegui salvar a Mpili, mas vou lutar até último suspiro para salvar várias Mpilis.)

YOLANDA VICTOR GARRAFÃO é Mestranda em Ciências Sociais com Habilitação em Antropologia pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), licenciada em Sociologia e Bacharel em Humanidades pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), ambas no Brasil.

É Professora na Universidade Lusófona da Guiné-Bissau, lecionando classe, estratificação, mobilidade social e sociologia do trabalho e coordenadora do Movimento Nacional Mindjer Ika Tambur (Mulher não é tambor) no enfrentamento à violência de qualquer forma de agressão física, psicológica, sexual ou simbólica contra a pessoas (sobretudo mulheres) em razão de sua identidade de gênero.

Tem desenvolvido ações de formação sobre a violência de gênero e como se manifesta para a Rede de Associações Juvenis, organizações não-governamentais, com a colaboração do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD Guiné-Bissau).

Desenvolve pesquisa na área de estudos africanos, mulherismo africano, tradição, modernidade e gênero, temas de sua pesquisa em andamento.